Uma nobre postura,
Estacionada e incongruente,
Expandindo a pequenez por tantos ângulos.
Segurei, mas caiu a lágrima,
Caiu como um fio dos meus olhos,
Escorrendo junto minha alma,
Vazou em diminuto,
Tão feroz e lentamente!
Voraz, porém perdida,
Acariciando a dor,
Acariciando meu próprio afeto
E desafeto.
O feto de minhas buscas,
O gêmeo de minhas angústias.
Uma nobre postura,
De pedra líquida e rachada,
Encolhendo os medos em cada canto do corpo.
Tive um desejo surdo que escutei,
Minhas vozes chamavam meu nome,
Chamavam-me também por outros nomes,
Alguns que nem conheço nem entendo,
Alguns que entendo e conheço demais
Para encarar.
Fecho os olhos em resignação envergonhada.
Mas serei sempre o depois,
Serei sempre pouco em tanto,
Serei sempre o avesso sujo
Ou enojadamente limpo,
Serei sempre a calada,
A que espera em estupidez um beijo?
Não um beijo de alguém,
Um beijo apenas,
Como se no beijo todo mais diluísse,
Como se um beijo pudesse diluir-me,
Desistindo-me de expressar,
Ou expressando-me toda num beijo,
Ou então, apenas querendo um beijo,
Apenas querendo a expressão do beijo,
Não mais a minha,
Querendo de mim apenas quietude,
Entrega e tristeza a escoar,
Escoar, escoar, escoar...
Como se logo fosse um fim,
Mais a frente um pouco, o fim.
Eu, que não desejo o fim,
Fico tentando enxergá-lo,
Forço os olhos para visualizá-lo,
Mas nada encontro em nenhum lugar.
Uma nobre postura
Que se desfaz cansada,
Entrega as cartas e assume as trapaças.
domingo, 24 de agosto de 2008
Embriaguez de Cansaço
Embriaguez de cansaço
O sono quente da noite
A chuva fria
As lembranças vagando nos porões
Piadas pacatas e indecentes
Poemas do avesso
Pensar nos fios de sua melancolia
Sentir seus fantasmas perto de mim
Apenas em imagem
Mas até as vértebras arrepiam
Calafrios perpassando meus duros calos
Um maço de cigarros de filtros vermelhos
São os disparates
Minha voz emparedada no quarto
Ou muito dispersa na úmida madrugada
Aqui nesta cidade inverno
Olhos que vibram
Olhos que vidram
Vidrados no transparente limpo das janelas
Paisagens tão calmas escondendo suas violências
Um coração pulando
Fugindo daqui
Fungando em desordem
Em descontente desânimo
Ou, talvez, apenas clamando
Chamando-me
Algumas idéias desmaterializadas
Matérias que vagam
Não assumo nada
Sumo no escuro
Sou a que voa, flutua e rasteja
Sou a que escorre em vão
A que se recolhe em lágrimas vãs
A que se espalha em lágrimas vãs
Se me pedem palavras
Se me cobram explicações
Não as tenho
Só tenho interjeições
Espaços entre o delito e o bom senso
O sono quente da noite
A chuva fria
As lembranças vagando nos porões
Piadas pacatas e indecentes
Poemas do avesso
Pensar nos fios de sua melancolia
Sentir seus fantasmas perto de mim
Apenas em imagem
Mas até as vértebras arrepiam
Calafrios perpassando meus duros calos
Um maço de cigarros de filtros vermelhos
São os disparates
Minha voz emparedada no quarto
Ou muito dispersa na úmida madrugada
Aqui nesta cidade inverno
Olhos que vibram
Olhos que vidram
Vidrados no transparente limpo das janelas
Paisagens tão calmas escondendo suas violências
Um coração pulando
Fugindo daqui
Fungando em desordem
Em descontente desânimo
Ou, talvez, apenas clamando
Chamando-me
Algumas idéias desmaterializadas
Matérias que vagam
Não assumo nada
Sumo no escuro
Sou a que voa, flutua e rasteja
Sou a que escorre em vão
A que se recolhe em lágrimas vãs
A que se espalha em lágrimas vãs
Se me pedem palavras
Se me cobram explicações
Não as tenho
Só tenho interjeições
Espaços entre o delito e o bom senso
Um Poema Para Dizer
Está tomando conta de mim,
Agora eu já poderia engolir teus glóbulos vermelhos,
Mas isto seria como uma fruta sem sabor.
Uma mulher no canto dizia:
Ficarei calada!
E eu ouvia repetidamente a mesma frase:
Ficarei calada!
Às vezes era semrpe tarde,
Tudo era quase passado,
Havia pessoas,
E havia a solidão que come a gente.
Então, só poderia espalhar meu silêncio de lírios,
Meu silêncio de perfume e dor.
A dor tem o cheiro da ânsia,
A garganta fechada,
A garganta estufada,
Como um vazo cheio de flores,
Como uma garrafa entupida,
Ou, a garganta engarrafada.
Como aqueles dias que não tem fim
E isto todo mundo sabe,
Todo mundo deve saber o que é um dia sem fim.
E a gente olha e não vê ninguém,
Então a gente olha de novo e repara,
A gente olha e vê o nosso próprio fantasma de braços abertos,
Pronto para nos acolher.
E isto tudo no ápice de um dia sem fim,
Quando as lágrimas escorrem sem fim.
E quando acabam,
É mais sem fim ainda.
E quando acabam,
Voltam ainda
Para acariciar o rosto,
Para colorir de vermelho o pálido branco dos olhos.
Queria fechar as janelas,
Mas terei que abri-las e deixar que o vento...
Ah! Como está ventando lá fora
E como passam pessoas que desconheço!
Posso me encolher tanto
E mesmo assim não desaparecer.
Percebo que os espíritos voam
E brincam, brincam e voam,
E as minhas pequeninas asas
São mesmo gigantes.
É que outro dia,
Eu sei,
Outro dia será sempre outro,
Mas há dias que são sempre os mesmos.
Outro dia eu pensava diferente,
Outro dia eu rabiscava nuvens,
Outro dia eu pulava amarelinha em abismos
E era divertido cair tanto no céu como no inferno desenhado com giz.
Outro dia eu simplesmente amava
E ficava me enroscando em fios de Ariadne
E, ao mesmo tempo, em fios de algodão.
Hoje,
Hoje sou quase a mesma,
Hoje sou exatamente a mesma,
Mesmo que ninguém queira assim,
Mesmo que ninguém goste,
Sou meus passos e a marca de meus passos na estrada,
E as marcas de meus passos não se apagam,
Estão sempre em mim.
Agora eu já poderia engolir teus glóbulos vermelhos,
Mas isto seria como uma fruta sem sabor.
Uma mulher no canto dizia:
Ficarei calada!
E eu ouvia repetidamente a mesma frase:
Ficarei calada!
Às vezes era semrpe tarde,
Tudo era quase passado,
Havia pessoas,
E havia a solidão que come a gente.
Então, só poderia espalhar meu silêncio de lírios,
Meu silêncio de perfume e dor.
A dor tem o cheiro da ânsia,
A garganta fechada,
A garganta estufada,
Como um vazo cheio de flores,
Como uma garrafa entupida,
Ou, a garganta engarrafada.
Como aqueles dias que não tem fim
E isto todo mundo sabe,
Todo mundo deve saber o que é um dia sem fim.
E a gente olha e não vê ninguém,
Então a gente olha de novo e repara,
A gente olha e vê o nosso próprio fantasma de braços abertos,
Pronto para nos acolher.
E isto tudo no ápice de um dia sem fim,
Quando as lágrimas escorrem sem fim.
E quando acabam,
É mais sem fim ainda.
E quando acabam,
Voltam ainda
Para acariciar o rosto,
Para colorir de vermelho o pálido branco dos olhos.
Queria fechar as janelas,
Mas terei que abri-las e deixar que o vento...
Ah! Como está ventando lá fora
E como passam pessoas que desconheço!
Posso me encolher tanto
E mesmo assim não desaparecer.
Percebo que os espíritos voam
E brincam, brincam e voam,
E as minhas pequeninas asas
São mesmo gigantes.
É que outro dia,
Eu sei,
Outro dia será sempre outro,
Mas há dias que são sempre os mesmos.
Outro dia eu pensava diferente,
Outro dia eu rabiscava nuvens,
Outro dia eu pulava amarelinha em abismos
E era divertido cair tanto no céu como no inferno desenhado com giz.
Outro dia eu simplesmente amava
E ficava me enroscando em fios de Ariadne
E, ao mesmo tempo, em fios de algodão.
Hoje,
Hoje sou quase a mesma,
Hoje sou exatamente a mesma,
Mesmo que ninguém queira assim,
Mesmo que ninguém goste,
Sou meus passos e a marca de meus passos na estrada,
E as marcas de meus passos não se apagam,
Estão sempre em mim.
Pedaços de Afagos e Afogos
Algumas pessoas são tão amadas
Que tenho medo de tocá-las
Alguns são tão próximos
Que eu desvio os olhos
Que eu tampo o rosto com as mãos
Que eu escondo a verdade
Alguns são efêmeros
A ponto de me fazer desistir da eternidade
Algumas tristezas são tão vagas
Que nem caem lágrimas
Têm horas que são menos de um segundo
Têm segundos que são mais extensos que o mundo
Tenho parceiros tão ímpares quanto eu
Penso que os díspares podem amar
Mas depois hão de disparar
Tive medo e fiz coragem
Tive vergonha e fiz ousadia
Mas não consegui transformar um não em um sim
Converter um tchau num olá
Sou arrojada
Mas só entre quatro paredes
Sou descolada
Mas prefiro me colar em você
Se fechar os olhos e contar até dez
Tudo passa
Mas e para ficar, como é que faz?
Será que dá para contar até menos dez?
Porém fiquei de olhos bem abertos
Olhando nos sentidos dos teus passos
Sem sentido na mente
E com o coração em declive
Pergunto:
Será que você não pode me pescar nenhuma estrela do mar?
Você diz:
Para quê?Já pesquei uma sereia!
Depois acaricia minhas escamas e me beija e me deixa e se joga em outras camas.
Vou fazendo quadrados enquanto ando em círculos
Vou fazendo traços enquanto danço compassos
Que tenho medo de tocá-las
Alguns são tão próximos
Que eu desvio os olhos
Que eu tampo o rosto com as mãos
Que eu escondo a verdade
Alguns são efêmeros
A ponto de me fazer desistir da eternidade
Algumas tristezas são tão vagas
Que nem caem lágrimas
Têm horas que são menos de um segundo
Têm segundos que são mais extensos que o mundo
Tenho parceiros tão ímpares quanto eu
Penso que os díspares podem amar
Mas depois hão de disparar
Tive medo e fiz coragem
Tive vergonha e fiz ousadia
Mas não consegui transformar um não em um sim
Converter um tchau num olá
Sou arrojada
Mas só entre quatro paredes
Sou descolada
Mas prefiro me colar em você
Se fechar os olhos e contar até dez
Tudo passa
Mas e para ficar, como é que faz?
Será que dá para contar até menos dez?
Porém fiquei de olhos bem abertos
Olhando nos sentidos dos teus passos
Sem sentido na mente
E com o coração em declive
Pergunto:
Será que você não pode me pescar nenhuma estrela do mar?
Você diz:
Para quê?Já pesquei uma sereia!
Depois acaricia minhas escamas e me beija e me deixa e se joga em outras camas.
Vou fazendo quadrados enquanto ando em círculos
Vou fazendo traços enquanto danço compassos
quarta-feira, 23 de julho de 2008
Caminhei entre os cômodos da casa
Caminhei entre os cômodos da casa
Buscando minhas faces
Era um lugar vago de mim
Meu lar nunca esteve imóvel
Precisei ir para rua
Buscar todos os meus rostos
Reparei em tantos olhos
Em nenhum deles o meu reflexo
Assustei-me
Debrucei-me nos meus braços
Todos os lugares vagos
Fumei alguns cigarros
Bebi muitos copos
Até perder o paladar
Prestei atenção
Muitos lugares vagos
Deitei as pálpebras
Tive bom senso
Não era um vago isento de tragédia
Voltei para cama sob o teto branco sujo
Logo em cima de mim
As teias e os ovos de aranhas
Tentei enxergar-me
Acreditava escutar o som das patas das aranhas
Ouvia seus passos calmos
Como se viessem pousar no meu colo
E se afastassem antes de chegar
Preferi a sensação de ausência
Busquei de novo imaginar um mundo oco
Mas imagem e sensação não se harmonizaram
Sensação de pêlos cheios de patas
Leve receio que pretende silenciar um grito
Tentei visualizar meu semblante
O corpo
O copo abandonado ao lado
Os filtros dos cigarros no cinzeiro
Não pude me ver
Procurei entre os cômodos da casa
Não sabia se procurava paz ou desavença
Todos os lugares vagos
Mas não tão vagos
Que eu não notasse neles alguma presença
Eu sentia meu cheiro espalhado pelos objetos
Pelo chão
Pelo ar abafado
As janelas fechadas
Minha presença sufocando o espaço
Pensei para respirar
Mesmo as paredes escondiam meus rostos
Das sombras emergiam
Para as sombras mergulhavam
Meus rostos
Buscando minhas faces
Era um lugar vago de mim
Meu lar nunca esteve imóvel
Precisei ir para rua
Buscar todos os meus rostos
Reparei em tantos olhos
Em nenhum deles o meu reflexo
Assustei-me
Debrucei-me nos meus braços
Todos os lugares vagos
Fumei alguns cigarros
Bebi muitos copos
Até perder o paladar
Prestei atenção
Muitos lugares vagos
Deitei as pálpebras
Tive bom senso
Não era um vago isento de tragédia
Voltei para cama sob o teto branco sujo
Logo em cima de mim
As teias e os ovos de aranhas
Tentei enxergar-me
Acreditava escutar o som das patas das aranhas
Ouvia seus passos calmos
Como se viessem pousar no meu colo
E se afastassem antes de chegar
Preferi a sensação de ausência
Busquei de novo imaginar um mundo oco
Mas imagem e sensação não se harmonizaram
Sensação de pêlos cheios de patas
Leve receio que pretende silenciar um grito
Tentei visualizar meu semblante
O corpo
O copo abandonado ao lado
Os filtros dos cigarros no cinzeiro
Não pude me ver
Procurei entre os cômodos da casa
Não sabia se procurava paz ou desavença
Todos os lugares vagos
Mas não tão vagos
Que eu não notasse neles alguma presença
Eu sentia meu cheiro espalhado pelos objetos
Pelo chão
Pelo ar abafado
As janelas fechadas
Minha presença sufocando o espaço
Pensei para respirar
Mesmo as paredes escondiam meus rostos
Das sombras emergiam
Para as sombras mergulhavam
Meus rostos
Se ele corresse sobre o chão
Se ele corresse sobre o chão
Como corre em abismos
Quem sabe não chegasse ao cume de algum lugar?!
Quem disse que queria o cume,
Quem disse que não queria,
Na verdade, o canto de um quadrado?!
Ninguém disse,
Mas ele queria,
Incessantemente,
O auge,
A ponta do triângulo,
O topo de uma pirâmide egita.
Nunca chegava ao cume,
Todavia sempre ao precipício.
Um último impulso e ele estaria estatelado,
Meia volta e ele teria todo um caminho percorrido a percorrer outra vez.
De novo os mesmos pedregulhos,
Os mesmos que ele havia chutado distraidamente,
Os mesmos que ele havia pisado,
Ainda a poeira levantada,
A poeira que ele ainda respirava.
Ah! quanta ida e volta!
Quantas voltas sem idas!
Algumas idas sem voltas,
Meu Deus, idas sem voltas!
Se pensasse não teria certeza nenhuma,
Se parasse refletir!
Transladou, transladou!
Enfim rotacionou para chegar a si.
Sentiu pena de si mesmo
Antes de dizer que era um deus.
Como corre em abismos
Quem sabe não chegasse ao cume de algum lugar?!
Quem disse que queria o cume,
Quem disse que não queria,
Na verdade, o canto de um quadrado?!
Ninguém disse,
Mas ele queria,
Incessantemente,
O auge,
A ponta do triângulo,
O topo de uma pirâmide egita.
Nunca chegava ao cume,
Todavia sempre ao precipício.
Um último impulso e ele estaria estatelado,
Meia volta e ele teria todo um caminho percorrido a percorrer outra vez.
De novo os mesmos pedregulhos,
Os mesmos que ele havia chutado distraidamente,
Os mesmos que ele havia pisado,
Ainda a poeira levantada,
A poeira que ele ainda respirava.
Ah! quanta ida e volta!
Quantas voltas sem idas!
Algumas idas sem voltas,
Meu Deus, idas sem voltas!
Se pensasse não teria certeza nenhuma,
Se parasse refletir!
Transladou, transladou!
Enfim rotacionou para chegar a si.
Sentiu pena de si mesmo
Antes de dizer que era um deus.
Apenas flutuou
Percebo que o que você queria dizer
Apenas flutuou
Vagou mole no seu olhar
Boiou no verde circular da íris
Todas as suas palavras se cobriam com manto de escuridão
Todas as suas frases mergulhavam em nuvens negras
Toda a sua expressão
Parou por detrás do seu rosto
Como se tudo não importasse nada
E o céu para você
Não passasse de um pedaço de gelo seco
Esfumaçando tudo que se aproxima
Apenas flutuou
Vagou mole no seu olhar
Boiou no verde circular da íris
Todas as suas palavras se cobriam com manto de escuridão
Todas as suas frases mergulhavam em nuvens negras
Toda a sua expressão
Parou por detrás do seu rosto
Como se tudo não importasse nada
E o céu para você
Não passasse de um pedaço de gelo seco
Esfumaçando tudo que se aproxima
segunda-feira, 21 de julho de 2008
Quiça um pouco de solidão
Quiçá um pouco de solidão
Para submergir
Descobrir meus pedaços insólitos
Uma alma escorregadiça
Que desliza nos sonhos
E não pisa em cimento
Senão em nuvens de poeira
Afasto antes de atrair
Sempre desejo algo
Um colo
Um beijo
Uma briga
Umas coisas sem propósitos
Uns propósitos impróprios
Ao menos uma palavra
Antes doce do que agressiva
Mas antes agressiva do que ausente
Como saber a quantidade de estrelas,
Quantas luas no céu,
Quantos céus para me agarrar,
Quantos infernos para eu me deitar?
Talvez nenhum
Quero um lugar
Onde paz não seja fastio
E onde eterno não seja sinônimo de tédio
Estou assobiando para os cães da rua
As coisas são quentes e frias
Para brincarmos com as feridas
O prazer das feridas
Nem posso julgar-me
Já não posso condenar-me
E investir um sentimento de culpa
A me destruir
Tudo agora faz parte de todos
Derramei minha presença nos outros
E eles se derramaram em mim
Não existe mais separação para nós
Pouco adianta querer cortar laços
Jogo minhas forças em qualquer canto
Em qualquer precipício
Ou qualquer buraco sem profundidade
Escancaro minha fraqueza sob olhos de Argos
Entretanto estou cheia de pretensões
De segundas, quartas e quintas intenções
Ainda ambiciono o óbvio e o imprevisto
Na boca
O sangue ou o gozo.
Para submergir
Descobrir meus pedaços insólitos
Uma alma escorregadiça
Que desliza nos sonhos
E não pisa em cimento
Senão em nuvens de poeira
Afasto antes de atrair
Sempre desejo algo
Um colo
Um beijo
Uma briga
Umas coisas sem propósitos
Uns propósitos impróprios
Ao menos uma palavra
Antes doce do que agressiva
Mas antes agressiva do que ausente
Como saber a quantidade de estrelas,
Quantas luas no céu,
Quantos céus para me agarrar,
Quantos infernos para eu me deitar?
Talvez nenhum
Quero um lugar
Onde paz não seja fastio
E onde eterno não seja sinônimo de tédio
Estou assobiando para os cães da rua
As coisas são quentes e frias
Para brincarmos com as feridas
O prazer das feridas
Nem posso julgar-me
Já não posso condenar-me
E investir um sentimento de culpa
A me destruir
Tudo agora faz parte de todos
Derramei minha presença nos outros
E eles se derramaram em mim
Não existe mais separação para nós
Pouco adianta querer cortar laços
Jogo minhas forças em qualquer canto
Em qualquer precipício
Ou qualquer buraco sem profundidade
Escancaro minha fraqueza sob olhos de Argos
Entretanto estou cheia de pretensões
De segundas, quartas e quintas intenções
Ainda ambiciono o óbvio e o imprevisto
Na boca
O sangue ou o gozo.
Foi dizendo as horas
Foi dizendo as horas
Disse cada hora como se cada ponteiro batesse um relógio
Foi pulando os dias
Pulou cada dia como se passasse cada estação
Foi contando os anos
Contou cada ano como se cada passagem fosse antiga e nova
Foi marcando o tempo
Marcou cada sentimento como se cada elo não se quebrasse
Foi memorizando as frases
Memorizou cada frase como se cada voz ecoasse sempre
Foi colhendo flores
Colheu cada flor como se cada pétala não murchasse em suas mãos
Foi somando números
Somou cada parte como se sua existência não fosse una
Foi partindo o vento
Partiu cada brisa como se cada instante estilhaçasse um aço
Foi cantando em versos
Cantou cada verso como se cada poema não se esgotasse.
Disse cada hora como se cada ponteiro batesse um relógio
Foi pulando os dias
Pulou cada dia como se passasse cada estação
Foi contando os anos
Contou cada ano como se cada passagem fosse antiga e nova
Foi marcando o tempo
Marcou cada sentimento como se cada elo não se quebrasse
Foi memorizando as frases
Memorizou cada frase como se cada voz ecoasse sempre
Foi colhendo flores
Colheu cada flor como se cada pétala não murchasse em suas mãos
Foi somando números
Somou cada parte como se sua existência não fosse una
Foi partindo o vento
Partiu cada brisa como se cada instante estilhaçasse um aço
Foi cantando em versos
Cantou cada verso como se cada poema não se esgotasse.
Pousei Sobre A Paisagem
Pousei sobre a paisagem
Quis descansar minhas asas de anjo rebelado
Mas ao fechar os olhos
Os barulhos
Meus pensamentos produziam trovões
Que só eu ouvia
Estrondos que partiam devaneios
Não havia sossego
Nunca para um anjo que fugiu da missão
Não para um anjo que deixa as asas
E vai caminhar no escuro
Um anjo pode se contentar com a felicidade?
Contenta-se com o paraíso?
Pode recusar dores?
Outros anjos tocam em minhas feridas
Fazem de propósito
Tentam acordar-me de um sono que não durmo
Fui conversar com andarilhos dos becos
Pedir conselhos para desconhecidos
Flertar com viciados
Eu
Um pequeno anjo que se sentia ferido
Um pequeno anjo querendo ir embora sempre
De qualquer lugar
Anjo que não se acomoda no céu
Anjo que se incomoda em casa
Anjo que perde os seus mil sentidos
Bocejos
Quis dormir um sono de anjo
Quis um sono de inocente
Quis descansar minhas asas de anjo rebelado
Mas ao fechar os olhos
Os barulhos
Meus pensamentos produziam trovões
Que só eu ouvia
Estrondos que partiam devaneios
Não havia sossego
Nunca para um anjo que fugiu da missão
Não para um anjo que deixa as asas
E vai caminhar no escuro
Um anjo pode se contentar com a felicidade?
Contenta-se com o paraíso?
Pode recusar dores?
Outros anjos tocam em minhas feridas
Fazem de propósito
Tentam acordar-me de um sono que não durmo
Fui conversar com andarilhos dos becos
Pedir conselhos para desconhecidos
Flertar com viciados
Eu
Um pequeno anjo que se sentia ferido
Um pequeno anjo querendo ir embora sempre
De qualquer lugar
Anjo que não se acomoda no céu
Anjo que se incomoda em casa
Anjo que perde os seus mil sentidos
Bocejos
Quis dormir um sono de anjo
Quis um sono de inocente
O Mais Importante
O mais importante é que alguma coisa aconteça
Podemos sair por aí e inverter a noite fria em quente
O mais importante é que você olhe para mim
E me dispa com os olhos
E me vista em fantasia
Venha me distrair com sonhos
Corra para os desvios
O mais importante é que as estátuas se movimentem
Podemos ficar em casa e inverter a noite fria em noite quente
O mais importante é ver seu corpo nu
Sob as cobertas ver suas costelas
Deixe-me ocupar seus pensamentos com meus sonhos
Volte no começo de mim
Tente descobrir-me de novo
Tente conhecer-me de novo
Talvez desta vez mentiras mais reais
Talvez desta vez mentiras que não sejam problemas
Talvez desta vez um pouco de malícia
Talvez desta vez possamos abrir a boca
Tanto para o beijo quanto para o grito
Quanto para o suspiro quanto para o silêncio
Façamos um brinde em copos de cristais
Estamos guardando saliva
Temos algumas histórias para contar
Durante o prelúdio da madrugada
O mais importante é que você recomende algo que faça bem a mente
O mais importante é que eu discorde
O mais importante é que você nunca concorde
Mas sempre caia aos meus pés
Pobre e fraca
Depois você se cansa
E leva sua beleza para longe de mim
É importante que eu te ligue bêbada
Pobre e fraca
Pedindo que voltes
É importante que você volte dizendo ir
E eu lhe diga nunca mais querer te ver
E quando você der dois passos para trás
Eu me jogue nos teus braços implorando o último beijo
E você só ceda depois de impertinência
É importante que não seja o último
Façamos um brinde em copos de cristais
É possível que a noite se prolongue no amanhecer
Podemos sair por aí e inverter a noite fria em quente
O mais importante é que você olhe para mim
E me dispa com os olhos
E me vista em fantasia
Venha me distrair com sonhos
Corra para os desvios
O mais importante é que as estátuas se movimentem
Podemos ficar em casa e inverter a noite fria em noite quente
O mais importante é ver seu corpo nu
Sob as cobertas ver suas costelas
Deixe-me ocupar seus pensamentos com meus sonhos
Volte no começo de mim
Tente descobrir-me de novo
Tente conhecer-me de novo
Talvez desta vez mentiras mais reais
Talvez desta vez mentiras que não sejam problemas
Talvez desta vez um pouco de malícia
Talvez desta vez possamos abrir a boca
Tanto para o beijo quanto para o grito
Quanto para o suspiro quanto para o silêncio
Façamos um brinde em copos de cristais
Estamos guardando saliva
Temos algumas histórias para contar
Durante o prelúdio da madrugada
O mais importante é que você recomende algo que faça bem a mente
O mais importante é que eu discorde
O mais importante é que você nunca concorde
Mas sempre caia aos meus pés
Pobre e fraca
Depois você se cansa
E leva sua beleza para longe de mim
É importante que eu te ligue bêbada
Pobre e fraca
Pedindo que voltes
É importante que você volte dizendo ir
E eu lhe diga nunca mais querer te ver
E quando você der dois passos para trás
Eu me jogue nos teus braços implorando o último beijo
E você só ceda depois de impertinência
É importante que não seja o último
Façamos um brinde em copos de cristais
É possível que a noite se prolongue no amanhecer
Relâmpagos Prateados
O silêncio é mais do que flecha
O silêncio dispara devaneios de dor
E em nuvens de sombras paredes
Prende-se firme angústia sórdida
O escuro foi trovão de insuportável brilho prateado
Onde meu rosto aparecia em relâmpagos e ruídos
Até cair no vácuo pela milésima vez
Incandescente todos os belos dias de tua companhia
Com teus sorrisos de pálida manhã
Vendo crianças brincarem no parque
O parque vazio de imensidão
E nossos gostos se perdendo na boca
Porque em nós tudo se perde
Mesmo meu azul olhar
É somente espectro negro de um provável futuro
E um improvável passado
Sussurro flores de lírios nos nossos delírios
Tentando vasculhar nossos antepassados dentro de mim
Só que derreto em luz de abismo
Sou queimada até o mais concreto da alma
Sucumbem todas as ínfimas certezas do pensamento lógico
Nunca teremos outra chance
É preciso morrer agora
Os ossos reclamam descanso e ressurreição
E a ressurreição é um respirar afóbico
Um cansaço de vida mal começada
Um luxo para o espírito mal acabado
Vidros quebram-se como espelhos
Espelhos quebram-se como pessoas
E a última nota de uma sonata
Será sempre a nota da dissolução
Talvez um pouco de insistência
E sempre a dissolução
Para que lembrar do sabor do prazer?
A lembrança é só o invólucro do precioso intacto absurdo mofo de carícias
Estive muito ao teu lado
Isto é quase nada
Aspiral rápida de êxtase
E sossego desesperado de nódoa escorrendo da língua sem beijos que acalme
Sempre encontrei lugares incomuns para o prazer
E alguns lugares óbvios para lágrimas
Meus olhos desperdiçam-se em olhos avessos e desinteressados.
O silêncio dispara devaneios de dor
E em nuvens de sombras paredes
Prende-se firme angústia sórdida
O escuro foi trovão de insuportável brilho prateado
Onde meu rosto aparecia em relâmpagos e ruídos
Até cair no vácuo pela milésima vez
Incandescente todos os belos dias de tua companhia
Com teus sorrisos de pálida manhã
Vendo crianças brincarem no parque
O parque vazio de imensidão
E nossos gostos se perdendo na boca
Porque em nós tudo se perde
Mesmo meu azul olhar
É somente espectro negro de um provável futuro
E um improvável passado
Sussurro flores de lírios nos nossos delírios
Tentando vasculhar nossos antepassados dentro de mim
Só que derreto em luz de abismo
Sou queimada até o mais concreto da alma
Sucumbem todas as ínfimas certezas do pensamento lógico
Nunca teremos outra chance
É preciso morrer agora
Os ossos reclamam descanso e ressurreição
E a ressurreição é um respirar afóbico
Um cansaço de vida mal começada
Um luxo para o espírito mal acabado
Vidros quebram-se como espelhos
Espelhos quebram-se como pessoas
E a última nota de uma sonata
Será sempre a nota da dissolução
Talvez um pouco de insistência
E sempre a dissolução
Para que lembrar do sabor do prazer?
A lembrança é só o invólucro do precioso intacto absurdo mofo de carícias
Estive muito ao teu lado
Isto é quase nada
Aspiral rápida de êxtase
E sossego desesperado de nódoa escorrendo da língua sem beijos que acalme
Sempre encontrei lugares incomuns para o prazer
E alguns lugares óbvios para lágrimas
Meus olhos desperdiçam-se em olhos avessos e desinteressados.
As Probabilidades das Possibilidades
Fossem apenas os cigarros esfumaçando a sala
Mas toda uma atmosfera de nada
De fumaça molhada
Também os beijos cuspidos
As palavras atiradas
O oco nos ouvidos
O eco repetindo silêncio
As flores dormindo
Os fantasmas passando
Pálpebras caídas feito pétalas no chão
Sentir desfalecer na noite uma ânsia
Uma angústia de anos
O piso grudando a sujeira de todo este tempo
Todas as mentiras grudadas
Estampadas na parede
Como quadros
Como pinturas de belas paisagens
E eu refletindo as probabilidades das possibilidades
Pensando que o mundo não acaba aqui dentro das paredes
Mas toda uma atmosfera de nada
De fumaça molhada
Também os beijos cuspidos
As palavras atiradas
O oco nos ouvidos
O eco repetindo silêncio
As flores dormindo
Os fantasmas passando
Pálpebras caídas feito pétalas no chão
Sentir desfalecer na noite uma ânsia
Uma angústia de anos
O piso grudando a sujeira de todo este tempo
Todas as mentiras grudadas
Estampadas na parede
Como quadros
Como pinturas de belas paisagens
E eu refletindo as probabilidades das possibilidades
Pensando que o mundo não acaba aqui dentro das paredes
quarta-feira, 4 de junho de 2008
Enquanto A Lua Espera O Dia
Enquanto a lua espera o dia
Vou para os recônditos
Tento esconder uma cara vadia
Rápido encontro rostos cônicos
Enxergo demônios no escuro
São bichos sátiros e cômicos
Meus pesadelos vazam por furos
Do meu corpo escorrem para o real
Meus murros só acertam muros
Meus fantasmas fazem carnaval
Minhas mãos tocam o nada
E eu perco qualquer ideal
Chamo por alguma fada
Mas não há cores por aqui
Minha vista está nublada
Vou para os recônditos
Tento esconder uma cara vadia
Rápido encontro rostos cônicos
Enxergo demônios no escuro
São bichos sátiros e cômicos
Meus pesadelos vazam por furos
Do meu corpo escorrem para o real
Meus murros só acertam muros
Meus fantasmas fazem carnaval
Minhas mãos tocam o nada
E eu perco qualquer ideal
Chamo por alguma fada
Mas não há cores por aqui
Minha vista está nublada
Porque Adoro Drummond
Meu irmão nunca gostou de poesia, mas era um adolescente apaixonado, era, talvez, sua primeira paixão, e, de fato, tinha começado há poucos dias seu primeiro namoro.
Aliás, namoro este a moda antiga, teve que pedir a mão da moça para o pai (que nem era pai, era padrasto), e também ia almoçar todo santo Domingo na casa da moça. Hora essas!, namoro sem poesia não é namoro. Ou talvez não tenha sido este seu pensamento, talvez não tivesse pensado nada, talvez apenas procurasse frases para expressar o que o seu coração não queria (nem podia) conter. O certo é que estava decidido a mandar uma carta a bem amada, e na carta estava decidido a escrever um (ou vários) poemas. Como não tinha o “dom” para escrita, foi procurar alguém que tivesse, sabe quem ele encontrou? Já sabem, né!
Pois bem, estava eu muito sossegada andando pela cozinha, na época tinha uns nove anos, então vocês devem ter percebido que provavelmente estava eu muito pouco sossegada passando pela cozinha. Tinha um quintal lá fora enorme para eu brincar, mas a cozinha também era muito aconchegante, tinha uma mesa de madeira enorme, quando eu era criança, tudo era enorme, inclusive os adultos. Os adultos eram sempre tão entretidos em coisas chatas, como ficar horas sentados tomando café e conversando sobre coisas desinteressantes. Cheguei a fazer pactos com amigos de nunca crescer, nunca deixar de ser criança. Consegui cumprir o pacto, mas só parcialmente, não posso dizer-me uma pessoa íntegra e de palavra, pois fico horas sentada tomando café falando chatices.
Mas naquele dia em que eu passava na cozinha com mesa grande o que foi que meus olhos avistaram de relance em cima da madeira da grande mesa? Um livro, e o mais divertido, não era um livro para crianças. É, para mim era novidade, o nome do livro era Poesia Errante, eu não fazia a menor idéia do que queria dizer “errante”, traduzi como poesias de amor, para mim poesia era algo que falasse de amor.
Primeiro li a capa e a contra-capa, na capa alguns desenhos, na contra-capa a foto de um homem velho com um enorme óculos e um versinho embaixo:
“Se procurar bem você acaba encontrando
Não a explicação (duvidosa) da vida,
Mas a poesia (inexplicável) da vida.”
De tudo que estava no livro isto era o que mais me fascinava, que curiosamente estava do lado de fora, e não do lado de dentro, do livro. Acabei por decorar o versinho e repeti-lo durante o resto da minha infância, toda minha adolescência e até hoje digo para os desesperados, desanimados, perdidos ou existencialistas, “se procurar bem você acaba encontrando, não a explicação (duvidosa) da vida, mas a poesia (inexplicável) da vida”.
Depois fui ler um pouco o universo da face de dentro do livro, preferia sempre ler os poemas mais curtos, se começasse ler um longo, perdia a atenção antes de chegar ao fim. Gostava, sobretudo, dos curtos e com rimas. Achei um poema mais próximo de versos românticos que imaginava, e ainda muito divertido:
“A minha cuca louca
é plena de juízo:
Desejo em tua boca
o mais belo sorriso.”
Foi outro poema que decorei e repeti por aí, quando queria fazer graça.
Mas um poema que me intrigava mesmo era:
“Bate bate bate
bate maquininha
ensina os mais jovens
a fazer festinha
que amor hoje em dia
(dr. Schwarz)* é ciência
cujo aprendizado
requer competência.”
No rodapé da página tinha um asterisco com a notação: *Alusão à obra de Oswald Schwarz”, Psicologia do sexo. Isto não me ajudava em nada a compreender porque é que o autor colocara entre parênteses um nome tão estranho no meio do seu poema, mesmo assim marquei meu próprio asterisco em cima da página, para indicar que aquele era meu poema preferido.
Naquela época eu não sabia quem era Carlos Drummond de Andrade, tampouco meu irmão, não sabia o quão importante o homem foi para literatura. Mas foi um dos primeiros escritores que li. É óbvio que hoje minha maneira de apreender sua obra é outra, são outras leituras, mas não vou dizer que quando era criança não toquei na essência da poesia.
Hoje gosto dos longos poemas do Drummond, aliás, são os que mais gosto.
Acho que quando for a um daqueles almoços inacabáveis em família, onde as crianças se divertem correndo de um lado para o outro numa gritaria insuportável e onde os adultos preferem se divertir comendo muito e falando muitas vezes do passado, vou perguntar ao meu irmão se ele sabe quem é Carlos Drummond de Andrade, tenho a leve impressão que apesar do poema enviado por carta para a primeira namorada, ele não deve se lembrar do nome do autor. A culpa não é só dele, é minha também, pois eu cometi um furto, aqui, em minhas mãos, agora, tenho o querido livro Poesia Errante.
Aliás, namoro este a moda antiga, teve que pedir a mão da moça para o pai (que nem era pai, era padrasto), e também ia almoçar todo santo Domingo na casa da moça. Hora essas!, namoro sem poesia não é namoro. Ou talvez não tenha sido este seu pensamento, talvez não tivesse pensado nada, talvez apenas procurasse frases para expressar o que o seu coração não queria (nem podia) conter. O certo é que estava decidido a mandar uma carta a bem amada, e na carta estava decidido a escrever um (ou vários) poemas. Como não tinha o “dom” para escrita, foi procurar alguém que tivesse, sabe quem ele encontrou? Já sabem, né!
Pois bem, estava eu muito sossegada andando pela cozinha, na época tinha uns nove anos, então vocês devem ter percebido que provavelmente estava eu muito pouco sossegada passando pela cozinha. Tinha um quintal lá fora enorme para eu brincar, mas a cozinha também era muito aconchegante, tinha uma mesa de madeira enorme, quando eu era criança, tudo era enorme, inclusive os adultos. Os adultos eram sempre tão entretidos em coisas chatas, como ficar horas sentados tomando café e conversando sobre coisas desinteressantes. Cheguei a fazer pactos com amigos de nunca crescer, nunca deixar de ser criança. Consegui cumprir o pacto, mas só parcialmente, não posso dizer-me uma pessoa íntegra e de palavra, pois fico horas sentada tomando café falando chatices.
Mas naquele dia em que eu passava na cozinha com mesa grande o que foi que meus olhos avistaram de relance em cima da madeira da grande mesa? Um livro, e o mais divertido, não era um livro para crianças. É, para mim era novidade, o nome do livro era Poesia Errante, eu não fazia a menor idéia do que queria dizer “errante”, traduzi como poesias de amor, para mim poesia era algo que falasse de amor.
Primeiro li a capa e a contra-capa, na capa alguns desenhos, na contra-capa a foto de um homem velho com um enorme óculos e um versinho embaixo:
“Se procurar bem você acaba encontrando
Não a explicação (duvidosa) da vida,
Mas a poesia (inexplicável) da vida.”
De tudo que estava no livro isto era o que mais me fascinava, que curiosamente estava do lado de fora, e não do lado de dentro, do livro. Acabei por decorar o versinho e repeti-lo durante o resto da minha infância, toda minha adolescência e até hoje digo para os desesperados, desanimados, perdidos ou existencialistas, “se procurar bem você acaba encontrando, não a explicação (duvidosa) da vida, mas a poesia (inexplicável) da vida”.
Depois fui ler um pouco o universo da face de dentro do livro, preferia sempre ler os poemas mais curtos, se começasse ler um longo, perdia a atenção antes de chegar ao fim. Gostava, sobretudo, dos curtos e com rimas. Achei um poema mais próximo de versos românticos que imaginava, e ainda muito divertido:
“A minha cuca louca
é plena de juízo:
Desejo em tua boca
o mais belo sorriso.”
Foi outro poema que decorei e repeti por aí, quando queria fazer graça.
Mas um poema que me intrigava mesmo era:
“Bate bate bate
bate maquininha
ensina os mais jovens
a fazer festinha
que amor hoje em dia
(dr. Schwarz)* é ciência
cujo aprendizado
requer competência.”
No rodapé da página tinha um asterisco com a notação: *Alusão à obra de Oswald Schwarz”, Psicologia do sexo. Isto não me ajudava em nada a compreender porque é que o autor colocara entre parênteses um nome tão estranho no meio do seu poema, mesmo assim marquei meu próprio asterisco em cima da página, para indicar que aquele era meu poema preferido.
Naquela época eu não sabia quem era Carlos Drummond de Andrade, tampouco meu irmão, não sabia o quão importante o homem foi para literatura. Mas foi um dos primeiros escritores que li. É óbvio que hoje minha maneira de apreender sua obra é outra, são outras leituras, mas não vou dizer que quando era criança não toquei na essência da poesia.
Hoje gosto dos longos poemas do Drummond, aliás, são os que mais gosto.
Acho que quando for a um daqueles almoços inacabáveis em família, onde as crianças se divertem correndo de um lado para o outro numa gritaria insuportável e onde os adultos preferem se divertir comendo muito e falando muitas vezes do passado, vou perguntar ao meu irmão se ele sabe quem é Carlos Drummond de Andrade, tenho a leve impressão que apesar do poema enviado por carta para a primeira namorada, ele não deve se lembrar do nome do autor. A culpa não é só dele, é minha também, pois eu cometi um furto, aqui, em minhas mãos, agora, tenho o querido livro Poesia Errante.
Cada Um
Cada qual com seu delírio
Eu escondo meus olhos na luz
Antes que você perceba
Que sou apenas sombra
Cada um com seus versos
Eu escrevo meus sigilos
Para não sussurrar em seus ouvidos
Palavras idólatras
Cada qual com suas visões
Minhas paisagens são esfumaçadas
Cheias de perspectivas
Com caminhos infindáveis
Cada um com sua perdição
Minha perdição não é o copo de uísque
O copo de uísque é a conseqüência
Da minha perdição
Eu escondo meus olhos na luz
Antes que você perceba
Que sou apenas sombra
Cada um com seus versos
Eu escrevo meus sigilos
Para não sussurrar em seus ouvidos
Palavras idólatras
Cada qual com suas visões
Minhas paisagens são esfumaçadas
Cheias de perspectivas
Com caminhos infindáveis
Cada um com sua perdição
Minha perdição não é o copo de uísque
O copo de uísque é a conseqüência
Da minha perdição
sexta-feira, 30 de maio de 2008
Pontinhos
Os tempos vão lentamente caindo,
A areia escorre na ampulheta.
Miúdos, miúdos pedaços.
Muitos pedaços miúdos jogados uns sobre os outros.
Fico pensando em pedacinhos de mim,
Escorrendo como areia,
Marcando as horas dentro de um vidro.
Uma miúda sensação faz escorrer sobre mim outras miúdas sensações.
Tenho saudades inexatas
E cúbicas lágrimas,
Gelo que desliza os olhos.
Não há como pontuar a eternidade.
A areia escorre na ampulheta.
Miúdos, miúdos pedaços.
Muitos pedaços miúdos jogados uns sobre os outros.
Fico pensando em pedacinhos de mim,
Escorrendo como areia,
Marcando as horas dentro de um vidro.
Uma miúda sensação faz escorrer sobre mim outras miúdas sensações.
Tenho saudades inexatas
E cúbicas lágrimas,
Gelo que desliza os olhos.
Não há como pontuar a eternidade.
segunda-feira, 26 de maio de 2008
No Jardim da Noite
Entre flores e mistérios,
Entre mistérios e flores,
Eu vaguei no jardim da noite.
A lua refletida nas águas da fonte,
No branco brilho da lua eu podia entrever sombras.
As águas também refletiam meus olhos,
Procurei palavras para descrever o que via,
Tive medo de dizer palavras que tivessem o valor do nada,
Tive medo de ser aniquilada por pensamentos inexpressivos
Que eu não fosse capaz de carregar.
Depois tive medo de não ser digna da minha solidão,
De não saber o que fazer com minha preciosa solidão.
Tive medo de estar ali,
Absorta pela minha imagem,
Tal qual Narciso,
Para sempre,
Sozinha para sempre,
Então me invadiu um medo de não ser digna de companhia.
Entre flores e mistérios,
Entre mistérios e flores,
O que sobrava em minhas mãos
Eram pétalas de acaso,
Puro acaso que poderia me levar para o Olímpio,
Ou para o Hades.
Debrucei-me a pensar em tal dualidade,
Quis ir para o Olímpio,
Quis ir para o Hades,
Mas não queria ficar no meio do caminho.
Não queria o entre,
Queria o extremo,
Queria a força da vida exalando seu hálito por todos os cantos,
Queria, até mesmo, a força da morte exalando seu terrível hálito.
Mas não queria me perder em sorrisos feitos de conveniências,
Não queria me perder em hábitos distraídos,
Em beijos tediosos,
Ou amores sem odores.
Entre mistérios e flores,
Eu vaguei no jardim da noite.
A lua refletida nas águas da fonte,
No branco brilho da lua eu podia entrever sombras.
As águas também refletiam meus olhos,
Procurei palavras para descrever o que via,
Tive medo de dizer palavras que tivessem o valor do nada,
Tive medo de ser aniquilada por pensamentos inexpressivos
Que eu não fosse capaz de carregar.
Depois tive medo de não ser digna da minha solidão,
De não saber o que fazer com minha preciosa solidão.
Tive medo de estar ali,
Absorta pela minha imagem,
Tal qual Narciso,
Para sempre,
Sozinha para sempre,
Então me invadiu um medo de não ser digna de companhia.
Entre flores e mistérios,
Entre mistérios e flores,
O que sobrava em minhas mãos
Eram pétalas de acaso,
Puro acaso que poderia me levar para o Olímpio,
Ou para o Hades.
Debrucei-me a pensar em tal dualidade,
Quis ir para o Olímpio,
Quis ir para o Hades,
Mas não queria ficar no meio do caminho.
Não queria o entre,
Queria o extremo,
Queria a força da vida exalando seu hálito por todos os cantos,
Queria, até mesmo, a força da morte exalando seu terrível hálito.
Mas não queria me perder em sorrisos feitos de conveniências,
Não queria me perder em hábitos distraídos,
Em beijos tediosos,
Ou amores sem odores.
sábado, 24 de maio de 2008
Passear pela sala
Passear pela sala,
Passos em descompassos no mesmo cômodo de todos os dias,
Em mim um pedaço de incomodo,
O fastio das paredes abatendo-me.
A tristeza da ansiedade vem engolindo minha rotina há dias,
Espero que minha espera não esteja esperando por nada,
Quero dizer que espero que minha espera espere por algo além de vultos.
Não há nada que venha derreter o silêncio,
Pois ninguém vê a cor do meu retido grito,
E o que diria minha tímida voz diante do delírio,
Da sensatez do meu delírio,
E o que diria minha tímida voz diante de você,
Da sensatez da sua existência quase calculada.
Pensar em você não me levará a qualquer lugar,
E que lugares procuro?
Não quero espaços nos seus braços,
Não desejo ter histórias nas suas memórias!
Onde é que eu poderia ir?
Vou pensando em parar de pensar.
Seria perfeito se eu me entendesse com o imperfeito,
Seria quase um gozo senão fosse o desprezo,
Seria lindo alcançar a imperfeição perfeita,
Tão lindo,
Quase ridículo de tão bonito.
Pego com carinho o telefone em minhas mãos,
Está mudo como eu,
Deixo-o cair sem que meus olhos caiam também,
Seguro meus olhos na face,
Peço desculpa a mim mesma pelo que me fiz,
Depois cuspo as desculpas no ralo da pia.
Não posso mais me arrepender das desventuras,
Desvaneço os velhos rostos na fumaça de tantos cigarros,
Tento traçar um futuro qualquer,
Mas no estado em que me encontro,
Se todas as retas virassem curvas,
É provável que eu não notasse.
Passos em descompassos no mesmo cômodo de todos os dias,
Em mim um pedaço de incomodo,
O fastio das paredes abatendo-me.
A tristeza da ansiedade vem engolindo minha rotina há dias,
Espero que minha espera não esteja esperando por nada,
Quero dizer que espero que minha espera espere por algo além de vultos.
Não há nada que venha derreter o silêncio,
Pois ninguém vê a cor do meu retido grito,
E o que diria minha tímida voz diante do delírio,
Da sensatez do meu delírio,
E o que diria minha tímida voz diante de você,
Da sensatez da sua existência quase calculada.
Pensar em você não me levará a qualquer lugar,
E que lugares procuro?
Não quero espaços nos seus braços,
Não desejo ter histórias nas suas memórias!
Onde é que eu poderia ir?
Vou pensando em parar de pensar.
Seria perfeito se eu me entendesse com o imperfeito,
Seria quase um gozo senão fosse o desprezo,
Seria lindo alcançar a imperfeição perfeita,
Tão lindo,
Quase ridículo de tão bonito.
Pego com carinho o telefone em minhas mãos,
Está mudo como eu,
Deixo-o cair sem que meus olhos caiam também,
Seguro meus olhos na face,
Peço desculpa a mim mesma pelo que me fiz,
Depois cuspo as desculpas no ralo da pia.
Não posso mais me arrepender das desventuras,
Desvaneço os velhos rostos na fumaça de tantos cigarros,
Tento traçar um futuro qualquer,
Mas no estado em que me encontro,
Se todas as retas virassem curvas,
É provável que eu não notasse.
Estatismo
Era só eu quem reparava,
Eu contemplava as minhas sombras estáticas,
Como quem adora um monumento consagrado,
Algo que ficou documentando um tempo passado,
Dentro de um salão de antiquários.
Hesitei alguns minutos para voltar a perceber a gravidade terrestre,
Pensei para levantar meus pés e dar mais um passo,
Fosse um passo para frente,
Um passo ao lado,
Ou mesmo um passo para trás,
Naquele momento qualquer coisa seria válida,
Qualquer coisa que me tirasse do lugar onde estava absorvida pelas minhas pessoas.
Senti que o centro da Terra é um imã puxando-me sempre para baixo,
Assim mantenho meu precário equilíbrio.
Poderia ser uma música,
Ou poderia ser o silêncio,
Mas precisava que de algum modo
Meu coração não passasse despercebido pelo som,
Pois eu procurava a saída do estatismo,
Buscava algum fluxo
Que não fosse o fluxo sonâmbulo.
Eu contemplava as minhas sombras estáticas,
Como quem adora um monumento consagrado,
Algo que ficou documentando um tempo passado,
Dentro de um salão de antiquários.
Hesitei alguns minutos para voltar a perceber a gravidade terrestre,
Pensei para levantar meus pés e dar mais um passo,
Fosse um passo para frente,
Um passo ao lado,
Ou mesmo um passo para trás,
Naquele momento qualquer coisa seria válida,
Qualquer coisa que me tirasse do lugar onde estava absorvida pelas minhas pessoas.
Senti que o centro da Terra é um imã puxando-me sempre para baixo,
Assim mantenho meu precário equilíbrio.
Poderia ser uma música,
Ou poderia ser o silêncio,
Mas precisava que de algum modo
Meu coração não passasse despercebido pelo som,
Pois eu procurava a saída do estatismo,
Buscava algum fluxo
Que não fosse o fluxo sonâmbulo.
Uma Dessas Noites
Bati três vezes na porta com artificial sossego. Podia ser que ela estivesse com alguém. Podia ser que estivesse só, mas que quisesse continuar só. Podia ser que ela abrisse a porta de cara amarrada, ou podia ser que ela me recebesse com largo sorriso; como saber, ela era imprevisível, às vezes me beijava até eu me sentir cansada e, às vezes, eu nem a beijava e ela reclamava de cansaço.
Ela percebeu, qualquer um perceberia, que cheguei um pouco bêbada em sua casa.
Cheguei um pouco bêbada e um pouco triste, porém não cheguei a implorar um ombro para chorar, não cheguei a cuspir pela janela nem a falar que tudo era sem sentido, que viver era como gritar com um surdo ou pintar para um cego, não cheguei a reclamar de mim mesma, nem a mal dizer o mundo, apenas pedi para ela colocar aquele CD do Tom Waits que tanto gosto. Meu coração estava nublado e sem trovões, sem ruídos.
Ela fez um sutil comentário de que já estava tarde, ao qual eu fingi não ouvir, o relógio dela sempre corria mais rápido do que o meu.
Deitei em seu colchão velho e amarelado que cheirava mofo; nenhuma posição era cômoda, qualquer lado em que virasse sentia meus músculos contraídos ou relaxados demais. Insisti que não se incomodasse comigo, que eu sou assim meio soturna mesmo, que não queria nada, apenas ficar quieta e, de preferência, não ter que pensar muitas coisas, mas que talvez fosse melhor ir embora, pois nem sabia ao certo porque tinha vindo. Contei até dez, respirei uma última vez o odor de sua casa, de seus objetos, da atmosfera de sua presença, então, disse tchau.
É sempre assim quando me despeço sem querer de fato ir embora, sempre tenho que respirar fundo, sempre tenho que contar alguns números, sempre tenho que dizer mentalmente “Vá embora agora, não vale a pena ficar, não seja inconveniente, tenha mais orgulho”.
Sabia que ao chegar em casa eu ainda poderia conversar com as plantas. Que meu cachorro viria me receber com empolgação, embora este não fosse um dia alegre para mim, mas meu cachorro não sabia disto, eu teria que contar a ele como me sentia e como queria ficar sozinha e como, por vezes, é ruim a solidão, mas que o melhor era que ele voltasse a dormir.
Chutei pedrinhas pela calçada, reparei a lua minguando.
Ela percebeu, qualquer um perceberia, que cheguei um pouco bêbada em sua casa.
Cheguei um pouco bêbada e um pouco triste, porém não cheguei a implorar um ombro para chorar, não cheguei a cuspir pela janela nem a falar que tudo era sem sentido, que viver era como gritar com um surdo ou pintar para um cego, não cheguei a reclamar de mim mesma, nem a mal dizer o mundo, apenas pedi para ela colocar aquele CD do Tom Waits que tanto gosto. Meu coração estava nublado e sem trovões, sem ruídos.
Ela fez um sutil comentário de que já estava tarde, ao qual eu fingi não ouvir, o relógio dela sempre corria mais rápido do que o meu.
Deitei em seu colchão velho e amarelado que cheirava mofo; nenhuma posição era cômoda, qualquer lado em que virasse sentia meus músculos contraídos ou relaxados demais. Insisti que não se incomodasse comigo, que eu sou assim meio soturna mesmo, que não queria nada, apenas ficar quieta e, de preferência, não ter que pensar muitas coisas, mas que talvez fosse melhor ir embora, pois nem sabia ao certo porque tinha vindo. Contei até dez, respirei uma última vez o odor de sua casa, de seus objetos, da atmosfera de sua presença, então, disse tchau.
É sempre assim quando me despeço sem querer de fato ir embora, sempre tenho que respirar fundo, sempre tenho que contar alguns números, sempre tenho que dizer mentalmente “Vá embora agora, não vale a pena ficar, não seja inconveniente, tenha mais orgulho”.
Sabia que ao chegar em casa eu ainda poderia conversar com as plantas. Que meu cachorro viria me receber com empolgação, embora este não fosse um dia alegre para mim, mas meu cachorro não sabia disto, eu teria que contar a ele como me sentia e como queria ficar sozinha e como, por vezes, é ruim a solidão, mas que o melhor era que ele voltasse a dormir.
Chutei pedrinhas pela calçada, reparei a lua minguando.
sexta-feira, 23 de maio de 2008
Espectros
Minha tímida e áspera voz sublinha minha introspecção. Hoje eu vi a cor do meu detido grito.
Meus fantasmas não saem do meu corpo para vagar à toa durante a noite. Não, muito pelo contrário, eles têm um objetivo, eles sempre tiveram um objetivo, sempre buscaram por algo que o meu próprio corpo nunca soube entender bem, meu corpo nunca soube direito traduzir as palavras, a poesia voraz, faminta, sedenta, dos meus espíritos, ah, se meu corpo é cheio de desejos, meu espírito é muito mais atroz! O pecado capital dos espíritos que me habitam é a gula, é a cobiça, é a ira, é a vaidade, é a luxúria, é a soberba, mas não a preguiça. Meus espectros não são preguiçosos, meus espectros voam mais altos e mais rápidos que os meus próprios sonhos, meus espectros percorrem o mundo para sussurrá-lo em meus ouvidos, e é assim que a minha mente tenta compreender qualquer coisa a respeito da vida.
Sei que em mim a reta se curva, que o certo se faz oblíquo, que talvez a voz da razão se torne voz da ilusão dentro dos meus planos futurísticos. Sei que meus abrigos podem cair com o sopro do lobo, sei que estão gotejando, que chove dentro de casa e mesmo assim eu não abandono os meus abrigos, mesmo assim eu insisto nos meus abrigos, pois eles continuam sendo os meus abrigos. E se tiver que me deparar com um lobo não terei muito com que me preocupar, porque também sou um pouco lobo, sou um pouco lobo e um pouco carneiro, mas também falo a língua dos lobos, também assopro como os lobos, também sei andar e correr como um lobo, sei caçar e fugir como um lobo, sei ser selvagem como um lobo e, às vezes, uivo, ou choro como um lobo olhando para lua, e sou tão solitária quanto um lobo é solitário.
Se minhas certezas são obscuras, se minhas certezas são pura contradição, então é porque sempre que me olho no espelho eu vejo, na verdade, o inverso da imagem, e quando não olho no espelho tenho que apalpar seguidas vezes a minha face, o meu corpo, para sentir como estou, para perceber a minha aparência, tentar perceber-me, não sei me perceber sem o toque, sem o meu toque e sem o toque alheio que passa a ser meu no momento da captação da minha pele, minha pele que apreende o que o outro me propicia.
Talvez se finja de lúcido o insano em mim, e finge tão bem que pode me convencer, pois a poeira da minha sala não chega a me sufocar, sei conviver com minhas dores e com meus prazeres, e quando não sei conviver, quando quero jogar metade do que tenho fora, quando faço meus piores gestos, é outra forma de sair de mim para passear-me por mim. Percebo, então, que até os meus objetos mais antigos ainda me surpreendem, aliás, esses são os que mais me surpreendem, surpreende-me a antiguidade com ares de novidade.
Tenho lágrimas que não escorrem, elas flutuam dentro de um lugar próprio para flutuação, minha aura flutua matéria, assim também tenho sorrisos que flutuam, meu campo eletromagnético flutua lágrimas e sorrisos.
Sonhos Acordados
Tão moleque e tão rico de idéias, aliás, rico de idéias justamente por ser criança. Sempre dormia contando estórias, é claro que se entretinha com as estórias e não dormia nada, repetia várias vezes a mesma estória, depois fazia muitos finais para um mesmo começo de estória, depois fazia muitos começos para um mesmo final. Procurava, na realidade, esferas em outras dimensões, queria achar uma entrada que saísse daqui, que desse em um lugar que talvez nem fosse lugar, que fosse diverso, como são diversos os dias, mas, não, que fosse mais diverso ainda, onde descobrisse sensações que dessem conta do corpo ou um corpo que desse conta de sensações, onde descobrisse sensações que extrapolassem o corpo e um corpo que extrapolasse sensações. Quando já era madrugada dormia. E dormia não como um anjo, não como um demônio, dormia como só uma criança pode dormir; dormia contando estrelas mentalmente, mas por vezes essas estrelas não eram estrelas senão desejos de outra coisa, desejos de algo que não saberia definir, desejo de correr em cima de árvores, de atravessar uma estrada inteira correndo até alcançar o infinito, desejo de nadar nas nuvens, nunca pensava que pudesse se afogar; só queria nadar e nadar e nadar, e mergulhar e mergulhar e mergulhar, voar na água, nadar no ar.
Imaginava-se uma espécie de super-herói pintando o arco-íris no céu. As sete cores pintadas por suas mãos.
Crescia e seus desejos cresciam e seu senso de realidade crescia ou diminuía, nem ele saberia dizer. Mas havia um desejo que persistia. Desejava pegar um pedaço de si, recortá-lo em outros pedaços e depois juntá-los, desejava embaralhar os pedaços e fazer outras combinações, queria experimentar a necessidade da luz e da sombra, e das sombras nas luzes e das luzes nas sombras.
Imaginava-se uma espécie de super-herói pintando o arco-íris no céu. As sete cores pintadas por suas mãos.
Crescia e seus desejos cresciam e seu senso de realidade crescia ou diminuía, nem ele saberia dizer. Mas havia um desejo que persistia. Desejava pegar um pedaço de si, recortá-lo em outros pedaços e depois juntá-los, desejava embaralhar os pedaços e fazer outras combinações, queria experimentar a necessidade da luz e da sombra, e das sombras nas luzes e das luzes nas sombras.
segunda-feira, 19 de maio de 2008
Deixe a Tempestade Passar
Deixe a tempestade passar
E venha enxugar o que a tempestade fez dos meus olhos,
Porque você é luz suave,
Nos seus ombros os pássaros poderiam pousar e descansar,
Mas você é só uma mulher sem caminho,
E eu sou só uma garota sem rumo.
Naqueles dias mais tristes em que se acorda lembrando da infância
E em tudo que sobrou de cada um de nós,
É com você que eu quero dividir o que sobra em mim,
É em você que eu quero saber o que há para além de mim,
E reconhecer o que temos guardado que de tão sagrado é mútuo.
Algo tão profundo que vem de outros tempos,
Mais longínquos do que nós mesmas ao nascer.
Quero deslizar na neve branca e macia do céu com você,
E ter a sua respiração aquecendo as minhas almas geladas,
E as minhas almas dançando com você.
E venha enxugar o que a tempestade fez dos meus olhos,
Porque você é luz suave,
Nos seus ombros os pássaros poderiam pousar e descansar,
Mas você é só uma mulher sem caminho,
E eu sou só uma garota sem rumo.
Naqueles dias mais tristes em que se acorda lembrando da infância
E em tudo que sobrou de cada um de nós,
É com você que eu quero dividir o que sobra em mim,
É em você que eu quero saber o que há para além de mim,
E reconhecer o que temos guardado que de tão sagrado é mútuo.
Algo tão profundo que vem de outros tempos,
Mais longínquos do que nós mesmas ao nascer.
Quero deslizar na neve branca e macia do céu com você,
E ter a sua respiração aquecendo as minhas almas geladas,
E as minhas almas dançando com você.
O Anjo Suicida
O anjo suicida,
Enjoado do fruto do pecado,
Tomou um veneno amargo,
Esquecido de mim,
Esquecido de tudo.
Deitou suas asas embaixo de uma árvore
E foi caminhando para o abismo,
Foi silencioso,
Foi desesperado,
Encantado por borboletas mortas.
Enjoado do fruto do pecado,
Tomou um veneno amargo,
Esquecido de mim,
Esquecido de tudo.
Deitou suas asas embaixo de uma árvore
E foi caminhando para o abismo,
Foi silencioso,
Foi desesperado,
Encantado por borboletas mortas.
Outros Lados
Enquanto o mundo se perde na via-láctea
E o homem olha calado
Com espanto e pudor dos seus atos dignos de vergonha,
Há dois pássaros que somem no horizonte,
Se um quer o céu,
Eu não hesito em dizer inferno
Porque aprendi a voar me arrastando no chão.
Outro dia perdi a estrela,
Fiquei nuvem diluída no vento,
Mesmo furacão me fez dormir,
Acordei a três milhas de mim.
Quando vi que não via o meu rosto,
Dei-me por morta,
Porém logo percebi meu coração batendo
Como uma pessoa impaciente tocando a campainha.
Tentei atender as mil portas do espírito,
Todavia eu cruzava os túneis da aura sem ter chave,
Sem ter fechadura,
Muito menos abertura,
Eu passava pelas frestas invisíveis que a luz da lua cortava para mim,
Deste modo passei por todas as avenidas do mundo
E mais uma centena de lagos e cachoeiras secretas,
Passagens para outros planos de existência,
Onde cachorros latem miados
E gatos miam latidos.
Não era febre que eu sentia,
Era frio de palavras de crianças vestidas de pais batendo em crianças vestidas de filhos.
O sorvete gelado que tomei de sua boca era muito quente,
Fiquei até doente.
Uma esfera além da nossa,
Antes? Depois?
Superior? Pequeno?
Vai aqui em outro lugar saber!
O círculo gira em redondo,
O céu se mostra em azul,
Mas tem outras cores, só que o universo chupou,
Fez isso para não nos matar de complexo de inferioridade.
E o homem olha calado
Com espanto e pudor dos seus atos dignos de vergonha,
Há dois pássaros que somem no horizonte,
Se um quer o céu,
Eu não hesito em dizer inferno
Porque aprendi a voar me arrastando no chão.
Outro dia perdi a estrela,
Fiquei nuvem diluída no vento,
Mesmo furacão me fez dormir,
Acordei a três milhas de mim.
Quando vi que não via o meu rosto,
Dei-me por morta,
Porém logo percebi meu coração batendo
Como uma pessoa impaciente tocando a campainha.
Tentei atender as mil portas do espírito,
Todavia eu cruzava os túneis da aura sem ter chave,
Sem ter fechadura,
Muito menos abertura,
Eu passava pelas frestas invisíveis que a luz da lua cortava para mim,
Deste modo passei por todas as avenidas do mundo
E mais uma centena de lagos e cachoeiras secretas,
Passagens para outros planos de existência,
Onde cachorros latem miados
E gatos miam latidos.
Não era febre que eu sentia,
Era frio de palavras de crianças vestidas de pais batendo em crianças vestidas de filhos.
O sorvete gelado que tomei de sua boca era muito quente,
Fiquei até doente.
Uma esfera além da nossa,
Antes? Depois?
Superior? Pequeno?
Vai aqui em outro lugar saber!
O círculo gira em redondo,
O céu se mostra em azul,
Mas tem outras cores, só que o universo chupou,
Fez isso para não nos matar de complexo de inferioridade.
Eu o Conhecia
Ele mergulhou nos meus olhos,
Eu o conhecia pelo cheiro,
Eu o conhecia pela imaginação.
Ele era sempre sério,
Até quando sorria.
Eu o conheci no momento de nossas mortes.
Nossos olhos esconderam-se atrás do medo
Para não nos vermos,
Para não arriscarmos um toque de olhares.
Eu o conhecia pelo cheiro,
Eu o conhecia pela imaginação.
Ele era sempre sério,
Até quando sorria.
Eu o conheci no momento de nossas mortes.
Nossos olhos esconderam-se atrás do medo
Para não nos vermos,
Para não arriscarmos um toque de olhares.
domingo, 18 de maio de 2008
Versos Que Fugiram Nesta Manhã
Os últimos poemas que escrevi
Tinham um pouco de você
As últimas lágrimas que escorri
Tinham um pouco dos seus olhos
Nos meus últimos sonhos
Paisagens do seu corpo
Da última vez que enlouqueci
Meus gritos eram a sua voz
Agora a estrada sozinha
Meus passos acompanhados de meus traços
Meus traços estraçalhados em meus braços
Os braços das memórias de meus laços
Sou escura
Mas sou verde como flor que nasce
Sou escura
É a fumaça do meu cigarro
Quando durmo pareço anjo
Quando acordo pareço homem
Quando amo sou mulher
Se você voltasse
Eu já fui embora
Não me encontraria naquele velho buraco de bocas beijando
Naquele profundo buraco de sexo
No raso buraco da solidão
Veja-me com as palavras da visão
Escute-me com a canção dos ouvidos
Toque-me com o silêncio do tato
Sinta-me com a incoerência da razão
Perceba
Depois que você foi
Eu já fui embora
Meus passos acompanhando meus traços
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