sexta-feira, 23 de maio de 2008

Espectros


Minha tímida e áspera voz sublinha minha introspecção. Hoje eu vi a cor do meu detido grito.

Meus fantasmas não saem do meu corpo para vagar à toa durante a noite. Não, muito pelo contrário, eles têm um objetivo, eles sempre tiveram um objetivo, sempre buscaram por algo que o meu próprio corpo nunca soube entender bem, meu corpo nunca soube direito traduzir as palavras, a poesia voraz, faminta, sedenta, dos meus espíritos, ah, se meu corpo é cheio de desejos, meu espírito é muito mais atroz! O pecado capital dos espíritos que me habitam é a gula, é a cobiça, é a ira, é a vaidade, é a luxúria, é a soberba, mas não a preguiça. Meus espectros não são preguiçosos, meus espectros voam mais altos e mais rápidos que os meus próprios sonhos, meus espectros percorrem o mundo para sussurrá-lo em meus ouvidos, e é assim que a minha mente tenta compreender qualquer coisa a respeito da vida.
Sei que em mim a reta se curva, que o certo se faz oblíquo, que talvez a voz da razão se torne voz da ilusão dentro dos meus planos futurísticos. Sei que meus abrigos podem cair com o sopro do lobo, sei que estão gotejando, que chove dentro de casa e mesmo assim eu não abandono os meus abrigos, mesmo assim eu insisto nos meus abrigos, pois eles continuam sendo os meus abrigos. E se tiver que me deparar com um lobo não terei muito com que me preocupar, porque também sou um pouco lobo, sou um pouco lobo e um pouco carneiro, mas também falo a língua dos lobos, também assopro como os lobos, também sei andar e correr como um lobo, sei caçar e fugir como um lobo, sei ser selvagem como um lobo e, às vezes, uivo, ou choro como um lobo olhando para lua, e sou tão solitária quanto um lobo é solitário.
Se minhas certezas são obscuras, se minhas certezas são pura contradição, então é porque sempre que me olho no espelho eu vejo, na verdade, o inverso da imagem, e quando não olho no espelho tenho que apalpar seguidas vezes a minha face, o meu corpo, para sentir como estou, para perceber a minha aparência, tentar perceber-me, não sei me perceber sem o toque, sem o meu toque e sem o toque alheio que passa a ser meu no momento da captação da minha pele, minha pele que apreende o que o outro me propicia.
Talvez se finja de lúcido o insano em mim, e finge tão bem que pode me convencer, pois a poeira da minha sala não chega a me sufocar, sei conviver com minhas dores e com meus prazeres, e quando não sei conviver, quando quero jogar metade do que tenho fora, quando faço meus piores gestos, é outra forma de sair de mim para passear-me por mim. Percebo, então, que até os meus objetos mais antigos ainda me surpreendem, aliás, esses são os que mais me surpreendem, surpreende-me a antiguidade com ares de novidade.
Tenho lágrimas que não escorrem, elas flutuam dentro de um lugar próprio para flutuação, minha aura flutua matéria, assim também tenho sorrisos que flutuam, meu campo eletromagnético flutua lágrimas e sorrisos.

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