quarta-feira, 4 de junho de 2008

Porque Adoro Drummond

Meu irmão nunca gostou de poesia, mas era um adolescente apaixonado, era, talvez, sua primeira paixão, e, de fato, tinha começado há poucos dias seu primeiro namoro.
Aliás, namoro este a moda antiga, teve que pedir a mão da moça para o pai (que nem era pai, era padrasto), e também ia almoçar todo santo Domingo na casa da moça. Hora essas!, namoro sem poesia não é namoro. Ou talvez não tenha sido este seu pensamento, talvez não tivesse pensado nada, talvez apenas procurasse frases para expressar o que o seu coração não queria (nem podia) conter. O certo é que estava decidido a mandar uma carta a bem amada, e na carta estava decidido a escrever um (ou vários) poemas. Como não tinha o “dom” para escrita, foi procurar alguém que tivesse, sabe quem ele encontrou? Já sabem, né!
Pois bem, estava eu muito sossegada andando pela cozinha, na época tinha uns nove anos, então vocês devem ter percebido que provavelmente estava eu muito pouco sossegada passando pela cozinha. Tinha um quintal lá fora enorme para eu brincar, mas a cozinha também era muito aconchegante, tinha uma mesa de madeira enorme, quando eu era criança, tudo era enorme, inclusive os adultos. Os adultos eram sempre tão entretidos em coisas chatas, como ficar horas sentados tomando café e conversando sobre coisas desinteressantes. Cheguei a fazer pactos com amigos de nunca crescer, nunca deixar de ser criança. Consegui cumprir o pacto, mas só parcialmente, não posso dizer-me uma pessoa íntegra e de palavra, pois fico horas sentada tomando café falando chatices.
Mas naquele dia em que eu passava na cozinha com mesa grande o que foi que meus olhos avistaram de relance em cima da madeira da grande mesa? Um livro, e o mais divertido, não era um livro para crianças. É, para mim era novidade, o nome do livro era Poesia Errante, eu não fazia a menor idéia do que queria dizer “errante”, traduzi como poesias de amor, para mim poesia era algo que falasse de amor.
Primeiro li a capa e a contra-capa, na capa alguns desenhos, na contra-capa a foto de um homem velho com um enorme óculos e um versinho embaixo:

“Se procurar bem você acaba encontrando
Não a explicação (duvidosa) da vida,
Mas a poesia (inexplicável) da vida.”

De tudo que estava no livro isto era o que mais me fascinava, que curiosamente estava do lado de fora, e não do lado de dentro, do livro. Acabei por decorar o versinho e repeti-lo durante o resto da minha infância, toda minha adolescência e até hoje digo para os desesperados, desanimados, perdidos ou existencialistas, “se procurar bem você acaba encontrando, não a explicação (duvidosa) da vida, mas a poesia (inexplicável) da vida”.
Depois fui ler um pouco o universo da face de dentro do livro, preferia sempre ler os poemas mais curtos, se começasse ler um longo, perdia a atenção antes de chegar ao fim. Gostava, sobretudo, dos curtos e com rimas. Achei um poema mais próximo de versos românticos que imaginava, e ainda muito divertido:

“A minha cuca louca
é plena de juízo:
Desejo em tua boca
o mais belo sorriso.”

Foi outro poema que decorei e repeti por aí, quando queria fazer graça.
Mas um poema que me intrigava mesmo era:

“Bate bate bate
bate maquininha
ensina os mais jovens
a fazer festinha

que amor hoje em dia
(dr. Schwarz)* é ciência
cujo aprendizado
requer competência.”

No rodapé da página tinha um asterisco com a notação: *Alusão à obra de Oswald Schwarz”, Psicologia do sexo. Isto não me ajudava em nada a compreender porque é que o autor colocara entre parênteses um nome tão estranho no meio do seu poema, mesmo assim marquei meu próprio asterisco em cima da página, para indicar que aquele era meu poema preferido.
Naquela época eu não sabia quem era Carlos Drummond de Andrade, tampouco meu irmão, não sabia o quão importante o homem foi para literatura. Mas foi um dos primeiros escritores que li. É óbvio que hoje minha maneira de apreender sua obra é outra, são outras leituras, mas não vou dizer que quando era criança não toquei na essência da poesia.
Hoje gosto dos longos poemas do Drummond, aliás, são os que mais gosto.
Acho que quando for a um daqueles almoços inacabáveis em família, onde as crianças se divertem correndo de um lado para o outro numa gritaria insuportável e onde os adultos preferem se divertir comendo muito e falando muitas vezes do passado, vou perguntar ao meu irmão se ele sabe quem é Carlos Drummond de Andrade, tenho a leve impressão que apesar do poema enviado por carta para a primeira namorada, ele não deve se lembrar do nome do autor. A culpa não é só dele, é minha também, pois eu cometi um furto, aqui, em minhas mãos, agora, tenho o querido livro Poesia Errante.

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