quarta-feira, 23 de julho de 2008

Caminhei entre os cômodos da casa

Caminhei entre os cômodos da casa
Buscando minhas faces

Era um lugar vago de mim

Meu lar nunca esteve imóvel
Precisei ir para rua
Buscar todos os meus rostos

Reparei em tantos olhos
Em nenhum deles o meu reflexo
Assustei-me
Debrucei-me nos meus braços

Todos os lugares vagos

Fumei alguns cigarros
Bebi muitos copos
Até perder o paladar

Prestei atenção
Muitos lugares vagos

Deitei as pálpebras
Tive bom senso
Não era um vago isento de tragédia

Voltei para cama sob o teto branco sujo
Logo em cima de mim
As teias e os ovos de aranhas
Tentei enxergar-me

Acreditava escutar o som das patas das aranhas
Ouvia seus passos calmos
Como se viessem pousar no meu colo
E se afastassem antes de chegar

Preferi a sensação de ausência
Busquei de novo imaginar um mundo oco
Mas imagem e sensação não se harmonizaram
Sensação de pêlos cheios de patas
Leve receio que pretende silenciar um grito

Tentei visualizar meu semblante
O corpo
O copo abandonado ao lado
Os filtros dos cigarros no cinzeiro

Não pude me ver
Procurei entre os cômodos da casa
Não sabia se procurava paz ou desavença

Todos os lugares vagos
Mas não tão vagos
Que eu não notasse neles alguma presença

Eu sentia meu cheiro espalhado pelos objetos
Pelo chão
Pelo ar abafado

As janelas fechadas
Minha presença sufocando o espaço
Pensei para respirar

Mesmo as paredes escondiam meus rostos
Das sombras emergiam
Para as sombras mergulhavam
Meus rostos

Se ele corresse sobre o chão

Se ele corresse sobre o chão
Como corre em abismos
Quem sabe não chegasse ao cume de algum lugar?!

Quem disse que queria o cume,
Quem disse que não queria,
Na verdade, o canto de um quadrado?!

Ninguém disse,
Mas ele queria,
Incessantemente,
O auge,
A ponta do triângulo,
O topo de uma pirâmide egita.

Nunca chegava ao cume,
Todavia sempre ao precipício.

Um último impulso e ele estaria estatelado,
Meia volta e ele teria todo um caminho percorrido a percorrer outra vez.

De novo os mesmos pedregulhos,
Os mesmos que ele havia chutado distraidamente,
Os mesmos que ele havia pisado,
Ainda a poeira levantada,
A poeira que ele ainda respirava.

Ah! quanta ida e volta!
Quantas voltas sem idas!
Algumas idas sem voltas,
Meu Deus, idas sem voltas!

Se pensasse não teria certeza nenhuma,
Se parasse refletir!

Transladou, transladou!
Enfim rotacionou para chegar a si.

Sentiu pena de si mesmo
Antes de dizer que era um deus.

Apenas flutuou

Percebo que o que você queria dizer
Apenas flutuou
Vagou mole no seu olhar
Boiou no verde circular da íris

Todas as suas palavras se cobriam com manto de escuridão
Todas as suas frases mergulhavam em nuvens negras

Toda a sua expressão
Parou por detrás do seu rosto
Como se tudo não importasse nada
E o céu para você
Não passasse de um pedaço de gelo seco
Esfumaçando tudo que se aproxima

segunda-feira, 21 de julho de 2008

Quiça um pouco de solidão

Quiçá um pouco de solidão
Para submergir

Descobrir meus pedaços insólitos
Uma alma escorregadiça
Que desliza nos sonhos
E não pisa em cimento
Senão em nuvens de poeira

Afasto antes de atrair
Sempre desejo algo
Um colo
Um beijo
Uma briga
Umas coisas sem propósitos
Uns propósitos impróprios

Ao menos uma palavra
Antes doce do que agressiva
Mas antes agressiva do que ausente

Como saber a quantidade de estrelas,
Quantas luas no céu,
Quantos céus para me agarrar,
Quantos infernos para eu me deitar?
Talvez nenhum

Quero um lugar
Onde paz não seja fastio
E onde eterno não seja sinônimo de tédio

Estou assobiando para os cães da rua

As coisas são quentes e frias
Para brincarmos com as feridas
O prazer das feridas

Nem posso julgar-me
Já não posso condenar-me
E investir um sentimento de culpa
A me destruir
Tudo agora faz parte de todos
Derramei minha presença nos outros
E eles se derramaram em mim
Não existe mais separação para nós
Pouco adianta querer cortar laços

Jogo minhas forças em qualquer canto
Em qualquer precipício
Ou qualquer buraco sem profundidade

Escancaro minha fraqueza sob olhos de Argos

Entretanto estou cheia de pretensões
De segundas, quartas e quintas intenções
Ainda ambiciono o óbvio e o imprevisto

Na boca
O sangue ou o gozo.

Foi dizendo as horas

Foi dizendo as horas
Disse cada hora como se cada ponteiro batesse um relógio

Foi pulando os dias
Pulou cada dia como se passasse cada estação

Foi contando os anos
Contou cada ano como se cada passagem fosse antiga e nova

Foi marcando o tempo
Marcou cada sentimento como se cada elo não se quebrasse

Foi memorizando as frases
Memorizou cada frase como se cada voz ecoasse sempre

Foi colhendo flores
Colheu cada flor como se cada pétala não murchasse em suas mãos

Foi somando números
Somou cada parte como se sua existência não fosse una

Foi partindo o vento
Partiu cada brisa como se cada instante estilhaçasse um aço

Foi cantando em versos
Cantou cada verso como se cada poema não se esgotasse.

Pousei Sobre A Paisagem

Pousei sobre a paisagem
Quis descansar minhas asas de anjo rebelado

Mas ao fechar os olhos
Os barulhos

Meus pensamentos produziam trovões
Que só eu ouvia
Estrondos que partiam devaneios

Não havia sossego
Nunca para um anjo que fugiu da missão
Não para um anjo que deixa as asas
E vai caminhar no escuro

Um anjo pode se contentar com a felicidade?
Contenta-se com o paraíso?
Pode recusar dores?

Outros anjos tocam em minhas feridas
Fazem de propósito
Tentam acordar-me de um sono que não durmo

Fui conversar com andarilhos dos becos
Pedir conselhos para desconhecidos
Flertar com viciados

Eu
Um pequeno anjo que se sentia ferido
Um pequeno anjo querendo ir embora sempre
De qualquer lugar
Anjo que não se acomoda no céu
Anjo que se incomoda em casa
Anjo que perde os seus mil sentidos

Bocejos
Quis dormir um sono de anjo
Quis um sono de inocente

O Mais Importante

O mais importante é que alguma coisa aconteça
Podemos sair por aí e inverter a noite fria em quente
O mais importante é que você olhe para mim
E me dispa com os olhos
E me vista em fantasia
Venha me distrair com sonhos

Corra para os desvios

O mais importante é que as estátuas se movimentem
Podemos ficar em casa e inverter a noite fria em noite quente
O mais importante é ver seu corpo nu
Sob as cobertas ver suas costelas
Deixe-me ocupar seus pensamentos com meus sonhos

Volte no começo de mim

Tente descobrir-me de novo
Tente conhecer-me de novo

Talvez desta vez mentiras mais reais
Talvez desta vez mentiras que não sejam problemas
Talvez desta vez um pouco de malícia

Talvez desta vez possamos abrir a boca
Tanto para o beijo quanto para o grito
Quanto para o suspiro quanto para o silêncio

Façamos um brinde em copos de cristais
Estamos guardando saliva
Temos algumas histórias para contar
Durante o prelúdio da madrugada

O mais importante é que você recomende algo que faça bem a mente
O mais importante é que eu discorde
O mais importante é que você nunca concorde
Mas sempre caia aos meus pés
Pobre e fraca

Depois você se cansa
E leva sua beleza para longe de mim

É importante que eu te ligue bêbada
Pobre e fraca
Pedindo que voltes

É importante que você volte dizendo ir
E eu lhe diga nunca mais querer te ver
E quando você der dois passos para trás
Eu me jogue nos teus braços implorando o último beijo
E você só ceda depois de impertinência
É importante que não seja o último

Façamos um brinde em copos de cristais
É possível que a noite se prolongue no amanhecer

Relâmpagos Prateados

O silêncio é mais do que flecha
O silêncio dispara devaneios de dor
E em nuvens de sombras paredes
Prende-se firme angústia sórdida

O escuro foi trovão de insuportável brilho prateado
Onde meu rosto aparecia em relâmpagos e ruídos
Até cair no vácuo pela milésima vez

Incandescente todos os belos dias de tua companhia
Com teus sorrisos de pálida manhã
Vendo crianças brincarem no parque
O parque vazio de imensidão
E nossos gostos se perdendo na boca
Porque em nós tudo se perde

Mesmo meu azul olhar
É somente espectro negro de um provável futuro
E um improvável passado

Sussurro flores de lírios nos nossos delírios
Tentando vasculhar nossos antepassados dentro de mim
Só que derreto em luz de abismo
Sou queimada até o mais concreto da alma
Sucumbem todas as ínfimas certezas do pensamento lógico

Nunca teremos outra chance
É preciso morrer agora
Os ossos reclamam descanso e ressurreição
E a ressurreição é um respirar afóbico
Um cansaço de vida mal começada
Um luxo para o espírito mal acabado

Vidros quebram-se como espelhos
Espelhos quebram-se como pessoas
E a última nota de uma sonata
Será sempre a nota da dissolução
Talvez um pouco de insistência
E sempre a dissolução

Para que lembrar do sabor do prazer?
A lembrança é só o invólucro do precioso intacto absurdo mofo de carícias

Estive muito ao teu lado
Isto é quase nada
Aspiral rápida de êxtase
E sossego desesperado de nódoa escorrendo da língua sem beijos que acalme

Sempre encontrei lugares incomuns para o prazer
E alguns lugares óbvios para lágrimas
Meus olhos desperdiçam-se em olhos avessos e desinteressados.

As Probabilidades das Possibilidades

Fossem apenas os cigarros esfumaçando a sala
Mas toda uma atmosfera de nada
De fumaça molhada

Também os beijos cuspidos
As palavras atiradas
O oco nos ouvidos
O eco repetindo silêncio
As flores dormindo
Os fantasmas passando
Pálpebras caídas feito pétalas no chão
Sentir desfalecer na noite uma ânsia
Uma angústia de anos

O piso grudando a sujeira de todo este tempo
Todas as mentiras grudadas
Estampadas na parede
Como quadros
Como pinturas de belas paisagens
E eu refletindo as probabilidades das possibilidades
Pensando que o mundo não acaba aqui dentro das paredes