Caminhei entre os cômodos da casa
Buscando minhas faces
Era um lugar vago de mim
Meu lar nunca esteve imóvel
Precisei ir para rua
Buscar todos os meus rostos
Reparei em tantos olhos
Em nenhum deles o meu reflexo
Assustei-me
Debrucei-me nos meus braços
Todos os lugares vagos
Fumei alguns cigarros
Bebi muitos copos
Até perder o paladar
Prestei atenção
Muitos lugares vagos
Deitei as pálpebras
Tive bom senso
Não era um vago isento de tragédia
Voltei para cama sob o teto branco sujo
Logo em cima de mim
As teias e os ovos de aranhas
Tentei enxergar-me
Acreditava escutar o som das patas das aranhas
Ouvia seus passos calmos
Como se viessem pousar no meu colo
E se afastassem antes de chegar
Preferi a sensação de ausência
Busquei de novo imaginar um mundo oco
Mas imagem e sensação não se harmonizaram
Sensação de pêlos cheios de patas
Leve receio que pretende silenciar um grito
Tentei visualizar meu semblante
O corpo
O copo abandonado ao lado
Os filtros dos cigarros no cinzeiro
Não pude me ver
Procurei entre os cômodos da casa
Não sabia se procurava paz ou desavença
Todos os lugares vagos
Mas não tão vagos
Que eu não notasse neles alguma presença
Eu sentia meu cheiro espalhado pelos objetos
Pelo chão
Pelo ar abafado
As janelas fechadas
Minha presença sufocando o espaço
Pensei para respirar
Mesmo as paredes escondiam meus rostos
Das sombras emergiam
Para as sombras mergulhavam
Meus rostos
quarta-feira, 23 de julho de 2008
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