domingo, 24 de agosto de 2008

Nobre Postura

Uma nobre postura,
Estacionada e incongruente,
Expandindo a pequenez por tantos ângulos.

Segurei, mas caiu a lágrima,
Caiu como um fio dos meus olhos,
Escorrendo junto minha alma,
Vazou em diminuto,
Tão feroz e lentamente!
Voraz, porém perdida,
Acariciando a dor,
Acariciando meu próprio afeto
E desafeto.

O feto de minhas buscas,
O gêmeo de minhas angústias.

Uma nobre postura,
De pedra líquida e rachada,
Encolhendo os medos em cada canto do corpo.

Tive um desejo surdo que escutei,
Minhas vozes chamavam meu nome,
Chamavam-me também por outros nomes,
Alguns que nem conheço nem entendo,
Alguns que entendo e conheço demais
Para encarar.
Fecho os olhos em resignação envergonhada.

Mas serei sempre o depois,
Serei sempre pouco em tanto,
Serei sempre o avesso sujo
Ou enojadamente limpo,
Serei sempre a calada,
A que espera em estupidez um beijo?

Não um beijo de alguém,
Um beijo apenas,
Como se no beijo todo mais diluísse,
Como se um beijo pudesse diluir-me,
Desistindo-me de expressar,
Ou expressando-me toda num beijo,
Ou então, apenas querendo um beijo,
Apenas querendo a expressão do beijo,
Não mais a minha,
Querendo de mim apenas quietude,
Entrega e tristeza a escoar,
Escoar, escoar, escoar...
Como se logo fosse um fim,
Mais a frente um pouco, o fim.

Eu, que não desejo o fim,
Fico tentando enxergá-lo,
Forço os olhos para visualizá-lo,
Mas nada encontro em nenhum lugar.

Uma nobre postura
Que se desfaz cansada,
Entrega as cartas e assume as trapaças.

Embriaguez de Cansaço

Embriaguez de cansaço
O sono quente da noite
A chuva fria
As lembranças vagando nos porões
Piadas pacatas e indecentes
Poemas do avesso

Pensar nos fios de sua melancolia
Sentir seus fantasmas perto de mim
Apenas em imagem
Mas até as vértebras arrepiam
Calafrios perpassando meus duros calos

Um maço de cigarros de filtros vermelhos
São os disparates
Minha voz emparedada no quarto
Ou muito dispersa na úmida madrugada

Aqui nesta cidade inverno
Olhos que vibram
Olhos que vidram
Vidrados no transparente limpo das janelas

Paisagens tão calmas escondendo suas violências

Um coração pulando
Fugindo daqui
Fungando em desordem
Em descontente desânimo
Ou, talvez, apenas clamando
Chamando-me

Algumas idéias desmaterializadas
Matérias que vagam

Não assumo nada
Sumo no escuro
Sou a que voa, flutua e rasteja
Sou a que escorre em vão
A que se recolhe em lágrimas vãs
A que se espalha em lágrimas vãs

Se me pedem palavras
Se me cobram explicações
Não as tenho
Só tenho interjeições
Espaços entre o delito e o bom senso

Um Poema Para Dizer

Está tomando conta de mim,
Agora eu já poderia engolir teus glóbulos vermelhos,
Mas isto seria como uma fruta sem sabor.

Uma mulher no canto dizia:
Ficarei calada!
E eu ouvia repetidamente a mesma frase:
Ficarei calada!

Às vezes era semrpe tarde,
Tudo era quase passado,
Havia pessoas,
E havia a solidão que come a gente.

Então, só poderia espalhar meu silêncio de lírios,
Meu silêncio de perfume e dor.

A dor tem o cheiro da ânsia,
A garganta fechada,
A garganta estufada,
Como um vazo cheio de flores,
Como uma garrafa entupida,
Ou, a garganta engarrafada.

Como aqueles dias que não tem fim
E isto todo mundo sabe,
Todo mundo deve saber o que é um dia sem fim.
E a gente olha e não vê ninguém,
Então a gente olha de novo e repara,
A gente olha e vê o nosso próprio fantasma de braços abertos,
Pronto para nos acolher.
E isto tudo no ápice de um dia sem fim,
Quando as lágrimas escorrem sem fim.
E quando acabam,
É mais sem fim ainda.
E quando acabam,
Voltam ainda
Para acariciar o rosto,
Para colorir de vermelho o pálido branco dos olhos.

Queria fechar as janelas,
Mas terei que abri-las e deixar que o vento...
Ah! Como está ventando lá fora
E como passam pessoas que desconheço!

Posso me encolher tanto
E mesmo assim não desaparecer.

Percebo que os espíritos voam
E brincam, brincam e voam,
E as minhas pequeninas asas
São mesmo gigantes.

É que outro dia,
Eu sei,
Outro dia será sempre outro,
Mas há dias que são sempre os mesmos.
Outro dia eu pensava diferente,
Outro dia eu rabiscava nuvens,
Outro dia eu pulava amarelinha em abismos
E era divertido cair tanto no céu como no inferno desenhado com giz.

Outro dia eu simplesmente amava
E ficava me enroscando em fios de Ariadne
E, ao mesmo tempo, em fios de algodão.

Hoje,
Hoje sou quase a mesma,
Hoje sou exatamente a mesma,
Mesmo que ninguém queira assim,
Mesmo que ninguém goste,
Sou meus passos e a marca de meus passos na estrada,
E as marcas de meus passos não se apagam,
Estão sempre em mim.

Pedaços de Afagos e Afogos

Algumas pessoas são tão amadas
Que tenho medo de tocá-las

Alguns são tão próximos
Que eu desvio os olhos
Que eu tampo o rosto com as mãos
Que eu escondo a verdade

Alguns são efêmeros
A ponto de me fazer desistir da eternidade

Algumas tristezas são tão vagas
Que nem caem lágrimas

Têm horas que são menos de um segundo
Têm segundos que são mais extensos que o mundo

Tenho parceiros tão ímpares quanto eu

Penso que os díspares podem amar
Mas depois hão de disparar

Tive medo e fiz coragem
Tive vergonha e fiz ousadia
Mas não consegui transformar um não em um sim
Converter um tchau num olá

Sou arrojada
Mas só entre quatro paredes
Sou descolada
Mas prefiro me colar em você

Se fechar os olhos e contar até dez
Tudo passa
Mas e para ficar, como é que faz?
Será que dá para contar até menos dez?

Porém fiquei de olhos bem abertos
Olhando nos sentidos dos teus passos
Sem sentido na mente
E com o coração em declive

Pergunto:
Será que você não pode me pescar nenhuma estrela do mar?
Você diz:
Para quê?Já pesquei uma sereia!
Depois acaricia minhas escamas e me beija e me deixa e se joga em outras camas.

Vou fazendo quadrados enquanto ando em círculos
Vou fazendo traços enquanto danço compassos