Quem é ela? Eu não sei quem ela é, o que ela foi ou o que ela será. Quem sou eu? Eu não sei quem eu sou, quem eu fui e quem eu serei. É como se estivesse caminhando entre neblinas brancas durante a noite. Isto é bom, suave, liso, delicioso, extasiante, divertido ou romântico, mas às vezes este flutuar é terrível, angustiante, triste e depressivo, então, num quase desespero, se tudo não fosse demasiado parado, tenho vontade de deixar tudo, abandonar tudo, todos, eu mesma, mudar para um lugar distante, uma vida distante, ser, ser, ser, ser algo ou alguém que eu possa descrever, escrever. Ou então simplesmente deixar que eu não seja nada, não seja de ninguém nem de nenhum lugar, rasgar as teias bordadas pelo tempo e pelo espaço, pelas pessoas e pelos sentimentos.
Ela se entrega quase como uma criança se entrega a um brinquedo, mas ela não se cansa, ela se entrega como um deus se entrega ao mundo, ela se entrega como se eu não fosse quem eu sou, aceitando-me, adorando-me, e me arrastando junto a si. Arrastando-me para seu mundo, arrastando-me, como se eu não pudesse evitar, e, de fato, eu não estou evitando nada, eu estou até sendo sincera, mas isto não é algo assim tão fácil, eu sou longínqua, eu mesma tenho que gritar meu nome quando preciso me chamar, pois estou lá, aonde a vista precisa se esforçar para enxergar. E nada esta me arrastando, estou indo de mãos soltas para onde apraz.
Penso, posso passar minha vida ao seu lado, depois penso, como poderia eu passar a vida ao lado de alguém, se no fundo só sei ser sozinha, só sei caminhar em névoa, só sei pertencer ao vento, sei apenas pronunciar palavras, cordiais ou bruscas, fraternais ou imateriais e mais nada. É isto, a imaterialidade sufocando meus motivos e anseios, pouco mais do que isto, e, no entanto, esta sensação gigante de mundo.
E ela esta lá, a alguns quilômetros de mim, alguns quilômetros do meu corpo, sorrindo, como se eu pudesse vê-la aqui do meu lado, ela está sempre prestes a me tocar, a acariciar-me, a escrever-me poemas, a ser minha, mas eu nunca tenho certeza, nunca terei certeza, minhas certezas resolveram ir embora quando fiquei triste pela primeira vez, quando pela primeira vez chorei, não, não era a primeira vez, mas era como se fosse, e pela primeira vez eu me detestei, eu me culpei, eu cai, eu sumi, pela primeira vez também aprendi, mas pela última vez eu tive certeza. E agora, eu que não tenho certeza, fico buscando as certezas, fico buscando respostas que jamais terei, fico espreitando o invisível.
Ela está a alguns quilômetros, mas há pouco esteve ao meu lado, há poucos minutos, há poucas horas atrás, há alguns dias, não mais do que um dia, ontem ainda, ela estava bem aqui onde estou agora, junto de mim, e assim eu era dela, não totalmente dela, porque tinha que ser minha também, mas era quase toda dela e ela não dizia nada, pois sabia que eu era dela. Mas ela tem olhos delicados que assustam, seus olhos assustam quase tanto quanto os meus quando me vejo. Ah, ela aceita-me, e isto é estranho demais para mim. E eu tenho tantas estradas, tantos caminhos, tantos passos, tantos desvios, tantas brechas, tantas cavernas, tantos céus, tantos rios, tantos penhascos, tantos planetas, tenho tudo a ser percorrido ainda, mas só posso dar um passo, um passo e depois outro e outro e outro e outro e outro e outro e outro e outro e outro e outro e outro e outro e outro... mas apenas um passo, enquanto penso mil passos. Sobre ela eu sei pouco, mas ela tem a mania de ser sincera e eu tenho a mania de tentar ser eu mesma representando-me, mal conseguindo fugir da teatralidade da vida. Ela tem a mania de ser tão sincera que eu não sei se ela é ela mesma ou se ela só sabe ser assim, mas se ela só sabe ser assim, ela é tão linda, e eu tão avessa que não me importa se sou linda ou horrível, pois sou avessa. Mas quero sempre ser bela, só que não sei ser nada disto, não sei ser linda, tampouco sei ser feia. A beleza é uma imagem, uma sensação, um sentido sem sentido. Não aprendi nada. Sei, eu a quero, mas querê-la é um abismo. Então pergunto se realmente quero, onde estou eu caminhando, para onde meus olhos vão, qual a temperatura dos meus desejos.
Transcorrer... correr... voar... permanecer... viajar... luzir... estar... avistar... sonhar... ficar... abraçar... molhar seus olhos... molhar sua boca... molhar seu corpo... transcorrer... correr... voar... permanecer... viajar... luzir... estar... avistar... sonhar... ficar... abraçar... molhar meus olhos... molhar minha boca... molhar meu corpo... minha vida... viver... viver... viver...
quarta-feira, 28 de janeiro de 2009
Assinar:
Postar comentários (Atom)
2 comentários:
Muitas vezes eu também penso em largar tudo e desaparecer, penso também que não sei quem sou, o que quero. Ser, muitas vezes dói e é terrível!
Também penso se poderei passar o resto da minha vida ao lado de alguém. Às vezes não consigo passar algumas horas ao meu lado. Rsss...
Estarei sempre por perto, estarei sempre te acariciando, mesmo quando você não tiver certezas, porque eu também não as tenho, assim como também procuro respostas que não aparecem.
Ainda sinto seu corpo no meu. Ainda sinto sua respiração. Vejo seu olhar, que também me assusta. Me assusta porque me vejo em seu olhar.
Você também tem a mania de ser sincera. Tão sincera que me assusta, pois ninguém foi tão sincera assim comigo. E és tão bela, meu bem!!!
Se querer-me é um abismo, cairemos juntas nesse abismo, porque eu quero me perder no seu labirinto e poder me achar em seu olhar.
Te adoro!
Bjos ardilosos!!!
...eu tb penso td isso aí...rsrs
... e que forma de se expressar, seu texto é indefinível...
Postar um comentário