quarta-feira, 28 de janeiro de 2009

Se isto é tudo que me resta

Se isto é tudo que me resta, como posso fugir? Isto é tudo que me resta, amar e morrer todo dia, viver todo dia, ouvir meus passos quebrados atrás de mim, ouvir os passos caindo nos espaços, o estalar dos cacos, e uma tentativa sublime de colar os atos no tempo, no ar, na brisa fresca da noite, no calor abafado da tarde, no sono da manhã.
Quero colher as flores que brotam do meu coração, antes que elas murchem, quero colher as flores que brotam do coração da vida, antes que murchem, quero tê-las em minhas salas, depois perdê-las no espectro das ruas. Quero as flores dos meus sorrisos regadas com minhas lágrimas. Quero as pétalas aos ventos.
Diria que são as borboletas dançando dentro de mim, milhares. Mas as borboletas morrem e cada vez que elas deitam sua eternidade efêmera em mim, dói. Quando cada uma delas cansa suas asas e descansam caídas, dói como um milhão delas, como todas elas. O que me sustenta é que sempre nascem mais e mais borboletas e sempre há muitas cores batendo asas e voando em mim.
Há vermelho, e isto é sangue, paixão e loucura; há azul, e isto é mar, céu, imensidão e solidão, há amarelo, e isto é fruta, sabor e sol; há lilás, e isto é lembrança, transformação e espírito; há verde, e isto é cheiro, folhas e imagem; há laranja, e isto é calor, crepúsculo e reflexão; há branco, e isto é intenso, brusco e longo; há rosa, e isto é carinho, doce e afeto; há negro, e isto é medo, mistério, profundidade e poesia.
Espalho as cores, reflito as cores, absorvo num sorvo, sugo seus gostos da atmosfera, desato-as na alma das coisas.

2 comentários:

Carolina Cristina disse...

Que lindo!!! Cheio de cor, cheio de sentimento e cheio de você!!!
Bjos...

Anônimo disse...

adorei este Rô!...realmente cheio de cor, borboletas e etc...
beijos