Não ser a mesma dos retratos.
Não a mesma das ocasiões favoráveis.
As mesmas das contradições, sempre as mesmas.
As escolhas aceitáveis.
As escolhas inaceitáveis.
Não é possível viver tudo sem viver o nada.
É muito estranho que me falte o que me resta e que me sobre o que me falta.
É muito estranho, mas a ausência é um presente indelicado do excesso de espaço,
É muito estranho esse tempo rápido e esse mal acabado cansaço.
Tudo o mais é como um vago fantasma,
Calado na noite exausta do dia.
Nem posso dizer que isso se aproxime do silêncio, pois vejo imagens tagarelas, enquanto ninguém diz nada, enquanto evita-se tocar no assunto.
Mas como alguém que se esquece de colocar os saltos e sente-se desequilibrado sem ele, percebi-me caindo.
E eu quisera ter tomado todas, mas estava completamente em mim, deparando-me comigo, atropelando-me.
Só pensava em partida.
A partida, a partida, a partida! A partida, a partida, a partida...
Todos os olhares diferentes.
E a expressão simples ficou intensa nos sonhos.
Muitas vezes o que é pequeno nos gestos pode ser enorme no fundo do coração,
E tudo se explode em sonhos.
Ela vive e morre nos sonhos.
Nos meus sonhos ela está vivendo e morrendo várias vezes.
Eu vivo e morro nos sonhos.
Nos meus sonhos eu estou vivendo e morrendo várias vezes.
Olho tantas vezes.
Digo palavras que preciso e tento conter o indeciso, mas isso tudo não é bem preciso.
quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009
Dentre céus azuis e cavernas cinzas
Dentre céus azuis e cavernas cinzas
Procurando seus traços
Passos caídos nos espaços
Ainda corro em meus cansaços
Minha vida seria
Vagar como espírito em sombras
Na captação da futura alegria
No entanto o rodar numa rotina de ausências
Desejaria quebrar a atmosfera de rocha gelada
Mas eu apenas mais uma louca pela rua
Observando as feições dos bêbados
Jamais ao dia
Olhos que reluzem num poço escuro
Eu tentando cortar o ar
Numa hora tardia em que se dorme
Dentre céus cinzas e cavernas azuis
Procurando suas bocas
Marcas de batom borradas nos espaços
Minha vida seria
Andar como um anjo sem rumo
Na captação da presença futura
No entanto o rodar numa rotina de ausências
Desejaria atravessar as paredes
Mas eu apenas uma mulher sentada na poltrona da sala
Observando as paisagens enquadradas pela janela.
Continuamente na noite
Na eterna escuridão
Meus olhos se reduzindo a penumbra
Meu crepúsculo tentando perpassar a luz
A certeza de um momento e de eterno movimento
Ainda corro em meus cansaços.
segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009
O vento venta ventando o tempo agora
O vento venta ventando o tempo agora,
A chuva chove chovendo mares hoje,
Eu crio-me recriando-me por onde ando,
Mas não me tenho não me contenho,
Não entendo nem pretendo nenhum remendo,
Demoro-me por onde moro,
Esbugalho os galhos em que me agarro,
Depois lastimo uma lágrima lavada,
Outra lágrima levada,
Desastrosa enxurrada.
A chuva chove chovendo mares hoje,
Eu crio-me recriando-me por onde ando,
Mas não me tenho não me contenho,
Não entendo nem pretendo nenhum remendo,
Demoro-me por onde moro,
Esbugalho os galhos em que me agarro,
Depois lastimo uma lágrima lavada,
Outra lágrima levada,
Desastrosa enxurrada.
sábado, 14 de fevereiro de 2009
Submersão
Para ela alguns segundos bastavam para submergir. Não me perguntem submergir onde, pode ser em tantos lugares, pode ser em lugar nenhum, pode ser para dentro ou para fora, pode ser em si ou em alheamento. E depois não há mais saída. Como andar para trás? Como voltar os passos? Como poderia ela deter seu próprio espírito se digladiando preso nas celas que ela e o mundo construíram a bel prazer. E se voltasse, não seria sem mudanças, não seria imutável, seria cheia de metamorfose, voltaria cheia de angústia e danos. Voltaria, quem sabe, purificada, molhada de pecados ou vestida de pureza. Sagaz com sorrisos subversivos ou imaculada e triste. Ela, sagaz com sorrisos que são seus e tão seus que ela sorri para o mundo ou para o submundo.
Aconteceu com ela muitas vezes de ser interrompida no meio de uma submersão, pois era obrigada a passar em meio a atmosferas contrastantes, entre mil olhos que lhe reparavam a presença a todo instante, mil olhos que lhe desprezavam sem lhe deixar de notar, de subtrair-lhe e de mesmo assim clamar por ela. Seria ela séria e imaculada? Seria ela engraçada em sua graça? Nadava entre escrúpulos e inescrúpulos. Nadava profundamente na superfície, na superfície do inacabável. Não havia tempo para voltar, e se voltasse, todo caminho a ser percorrido outra vez teria que ser o mesmo de antes. E era atacada por mil olhos parados, mas olhos que faziam rotações, voltas em torno de si mesmos, olhos infecundos, então tinha que fugir de ser ela mesma. Ela quis dizer algumas palavras, quis pronunciar e ver a voz voar da boca. Se tivesse, no mínimo, a oportunidade de dizer algumas palavras, mas nem isso, era o silêncio seu presente. Agora tinha que ir, agora não podia voltar nem adiantaria, agora era preciso continuar com o que lhe restava no rosto e no corpo, com as partes de si que ainda conseguia carregar consigo. Agora era o momento crucial de se olhar no espelho e se procurar, era o momento de resgatar sua vida, não era voltar atrás, mas era resgatar o que sempre foi seu, aproveitar que sempre foi de submergir e então ir fundo no que ainda não conhecia, mas que sabia que era preciso ir fundo. Era preciso sacrificar a segurança de ser indiferente, agora não era mais possível ser indiferente, era preciso gritar e continuar gritando quando lhe fizessem calar. Era preciso rir e continuar rindo quando lhe fizessem chorar.
Deu alguns passos e murmurou:
- Agora é a minha vez.
Como ninguém entendeu o que ela disse ou fizeram-se de desentendidos, ela não teve pudor de repetir mais alto:
- Agora é a minha vez.
Então, meio acabrunhados, mas fingindo naturalidade e com ar de superioridade, perguntaram-lhe:
- Vez do que? Está louca esta aí.
Apenas respondeu:
- Vocês sabem do estou falando.
Depois continuou seus passos e a submersão parecia-lhe um voo.
Aconteceu com ela muitas vezes de ser interrompida no meio de uma submersão, pois era obrigada a passar em meio a atmosferas contrastantes, entre mil olhos que lhe reparavam a presença a todo instante, mil olhos que lhe desprezavam sem lhe deixar de notar, de subtrair-lhe e de mesmo assim clamar por ela. Seria ela séria e imaculada? Seria ela engraçada em sua graça? Nadava entre escrúpulos e inescrúpulos. Nadava profundamente na superfície, na superfície do inacabável. Não havia tempo para voltar, e se voltasse, todo caminho a ser percorrido outra vez teria que ser o mesmo de antes. E era atacada por mil olhos parados, mas olhos que faziam rotações, voltas em torno de si mesmos, olhos infecundos, então tinha que fugir de ser ela mesma. Ela quis dizer algumas palavras, quis pronunciar e ver a voz voar da boca. Se tivesse, no mínimo, a oportunidade de dizer algumas palavras, mas nem isso, era o silêncio seu presente. Agora tinha que ir, agora não podia voltar nem adiantaria, agora era preciso continuar com o que lhe restava no rosto e no corpo, com as partes de si que ainda conseguia carregar consigo. Agora era o momento crucial de se olhar no espelho e se procurar, era o momento de resgatar sua vida, não era voltar atrás, mas era resgatar o que sempre foi seu, aproveitar que sempre foi de submergir e então ir fundo no que ainda não conhecia, mas que sabia que era preciso ir fundo. Era preciso sacrificar a segurança de ser indiferente, agora não era mais possível ser indiferente, era preciso gritar e continuar gritando quando lhe fizessem calar. Era preciso rir e continuar rindo quando lhe fizessem chorar.
Deu alguns passos e murmurou:
- Agora é a minha vez.
Como ninguém entendeu o que ela disse ou fizeram-se de desentendidos, ela não teve pudor de repetir mais alto:
- Agora é a minha vez.
Então, meio acabrunhados, mas fingindo naturalidade e com ar de superioridade, perguntaram-lhe:
- Vez do que? Está louca esta aí.
Apenas respondeu:
- Vocês sabem do estou falando.
Depois continuou seus passos e a submersão parecia-lhe um voo.
quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009
Seus olhos amarelos
Você passa rasgando minha alma,
Como se fosse simples pedaço de papel,
Simples tecido no corpo.
Fecho os olhos
E você já se foi,
Jovem de cabelos dourados,
Mergulhada na loucura,
Obcecada pela obsessão,
Transladada pela irrealidade da realidade.
Irradiando luz dos olhos amarelos
Por onde você corre,
Por onde você voa,
Nas avenidas cruzadas cheias de carros metálicos,
Nos caminhos oblíquos cheios de bêbados desiludidos,
Nas suas palavras mentirosas cheias de poesia.
O branco da lua seduz o negro da noite,
Mas falta luz no meu coração angustiado.
De repente seus olhos encontram o meu,
Seus olhos batem no meu,
Seus olhos acariciam meu olhar,
Seus olhos amarelos de flor fora de estação.
Como se fosse simples pedaço de papel,
Simples tecido no corpo.
Fecho os olhos
E você já se foi,
Jovem de cabelos dourados,
Mergulhada na loucura,
Obcecada pela obsessão,
Transladada pela irrealidade da realidade.
Irradiando luz dos olhos amarelos
Por onde você corre,
Por onde você voa,
Nas avenidas cruzadas cheias de carros metálicos,
Nos caminhos oblíquos cheios de bêbados desiludidos,
Nas suas palavras mentirosas cheias de poesia.
O branco da lua seduz o negro da noite,
Mas falta luz no meu coração angustiado.
De repente seus olhos encontram o meu,
Seus olhos batem no meu,
Seus olhos acariciam meu olhar,
Seus olhos amarelos de flor fora de estação.
Continuo
O céu de horizonte alaranjado
Mostra para mim o tempo,
Falando-me com palavras visuais,
Imagéticas e belas,
A paisagem que se estende.
Então sei,
Continuo sem parar,
Vejo meu destino,
Luz diluída no espaço,
Trevas diluídas em luz,
Sigo perdida minha luz no espaço de trevas em luz.
Continuo o caminho que descontinua em mim,
Descortinando a vida desferida nas esquinas,
Continuo meus atos,
Meus gestos,
Meu ódio,
Meu amor,
Meu carinho inocente e infantil.
Continuo, não paro porque é impossível,
Impossível deter a vida correndo em mim,
Inútil entorpecer a dor de viver,
O prazer de viver,
Por isso sigo a luz diluída no espaço.
No caminho pétalas caídas em pedras,
Pedras caídas em pétalas,
Caminho de pétalas em pedras,
Pedras em pétalas.
E no caminho, meus pés,
Movimento contínuo,
Meu corpo,
Caminho no vento,
Meu coração,
Na contínua pulsação,
Posso sentir
Meu sangue percorrendo-me.
Mostra para mim o tempo,
Falando-me com palavras visuais,
Imagéticas e belas,
A paisagem que se estende.
Então sei,
Continuo sem parar,
Vejo meu destino,
Luz diluída no espaço,
Trevas diluídas em luz,
Sigo perdida minha luz no espaço de trevas em luz.
Continuo o caminho que descontinua em mim,
Descortinando a vida desferida nas esquinas,
Continuo meus atos,
Meus gestos,
Meu ódio,
Meu amor,
Meu carinho inocente e infantil.
Continuo, não paro porque é impossível,
Impossível deter a vida correndo em mim,
Inútil entorpecer a dor de viver,
O prazer de viver,
Por isso sigo a luz diluída no espaço.
No caminho pétalas caídas em pedras,
Pedras caídas em pétalas,
Caminho de pétalas em pedras,
Pedras em pétalas.
E no caminho, meus pés,
Movimento contínuo,
Meu corpo,
Caminho no vento,
Meu coração,
Na contínua pulsação,
Posso sentir
Meu sangue percorrendo-me.
Assim longe
Assim longe,
Tentando um tato nos sonhos,
Procuro e não encontro,
Uns lábios que são vermelhos,
E são doces,
E são seus,
Mas só acho amargo,
Apenas ausência e azul.
Tentando um tato nos sonhos,
Procuro e não encontro,
Uns lábios que são vermelhos,
E são doces,
E são seus,
Mas só acho amargo,
Apenas ausência e azul.
terça-feira, 3 de fevereiro de 2009
Sobre a paixão
Quando eu não tenho o que pensar, eu penso nela. Quando eu não tenho o que dizer, eu falo sobre ela. Quando não tenho o que escrever, escrevo sobre ela. Estou eu aqui escrevendo sobre ela de novo. Quando eu tenho o que pensar, penso nela outra vez. Penso nela outra e outra vez. Quando não tenho o que dizer, também falo claramente dela ou escuramente dela. Falo sobre ela e falo sobre mim falando dela e falo sobre ela falando em mim. Quando tenho tudo para escrever, o mundo, as estrelas, os sóis, os anjos, as noites, as cavernas, as almas, os deuses, todos os espaços, salas e girassóis, rios e sereias, musgos e infernos, jardins e nuvens, escrevo sobre ela. Pois ela já penetrou minha existência amargamente de medos e anseios. Ela já tomou parte do meu mundo. Se a minha alma fosse um quarto, é como se lá ela passasse suas noites, como se dormisse todos os dias neste quarto e contaminasse meus sonhos. Não uma contaminação qualquer, não uma contaminação que cheira doença, embora isso possa cheirar doença também, mas uma contaminação de vida, de vidas, de pulsações. Há quem ache que paixões assim são indevidas, mas quem pode evitar o momento de sentir a explosão, o contato com o outro, o compartilhamento, sentir o mundo com o outro, essa fusão de pessoas. Porque se relacionar é assim, é uma fusão com o outro, uma difusão, uma efusão. Ou então é uma disfunção. Pois é, de repente você sai com alguém e algum tempo depois esta ouvindo as músicas que a pessoa escuta, vendo os filmes indicados pela pessoa, lendo os autores que a pessoa gosta. Isso tem um motivo simples, primeiro porque a pessoa fala disso e lhe atiça a curiosidade, segundo porque você passa muito tempo com a pessoa e acaba fazendo as coisas que a pessoa gosta, no fim das contas você está lá, no universo da pessoa. Assim como a pessoa também está no seu universo, conversando com os seus amigos, vendo os seus filmes, lendo os poemas que você gosta. Daí tudo vai se misturando, de repente não se sabe mais separar universos. Não estou querendo falar de individualidade, tampouco que se perde a individualidade por haver uma penetração de mundos, pois quando amamos é diferente, somos nós mesmos de outra forma, sendo no outro, deixando o outro ser em nós.
Tudo que sinto é novo, porque agora que ela chegou todos os sentimentos são invadidos por um pouco dela, todos os meus sentidos são novos, porque agora, quando vejo o sol nascer, vejo com a imagem dela. Aliás, a paixão sempre traz algo novo, quando se está apaixonado sente-se sempre o sabor do novo, porque a paixão é sempre fresca, porque se a paixão não fosse sempre fresca, não seria paixão, seria tédio. Há casais que são apaixonados a vida inteira, há alguns que não, embora a paixão cause a sensação de que vai durar a vida inteira, mas às vezes não dura, porém a paixão tem mil maneiras de se expressar. Pode se expressar num almoço, numa comida na boca, num olhar fixo, num olhar em fuga, num sorriso malicioso, num comentário feito para causar impressão, numa dança, numa canção murmurada, numa palavra de cuidado, também numa cena de ciúme e numa briga infundada, no fim das contas, a paixão pode levar muitas pessoas à loucura, ou, às loucuras variadas. Bem, é claro, entre loucura maior e loucura menor, a gente acaba experimentando um pouco da loucura também, deve ser impossível uma paixão sem nem uma dosezinha de loucura, já que paixão foge a normalidade e aos estados habituais e controlados do ser, paixão denota mesmo certo desequilíbrio. Isto, aliás, é um aspecto notável, pois é comum se ouvir e se dizer por aí, tal sujeito está bobo e apaixonado, ou expressões como, louco de paixão, cego de amor, morrendo de ciúmes ou, o que se aplica mais ao meu caso agora, morrendo de saudades. Fora aquela sensação, que vale mais do que qualquer expressão, aquela sensação de desespero misturado com agonia que faz a gente pensar assim “se não vê-la agora, morrerei”, e, no entanto, estas sensações vêm sempre quando estamos impedidos de ver a pessoa amada por algum motivo e no fim das contas eu mesma nunca morri de uma vez por todas, talvez em pequenos pedaços. Vou morrendo. Mas morrer não é ruim, enquanto vou morrendo, vou sentindo que estou viva. É estranho isto, ter que sentir que estou morrendo para só então sentir que estou vivendo. Assim é a paixão, faz a gente ter súbitas sensações de morte e súbitas sensações de vida, às vezes ao mesmo tempo e às vezes de modo intercalado.
A paixão é uma entrega. Entregar a si mesmo para aquele que despertou sua atenção, para seus olhos, para sua boca, para seu corpo, para suas palavras, para seus pensamentos, para os sonhos, para viver o céu e o inferno em instantes.
Bem que o poeta Vinícius disse, “Quem pagará o enterro e as flores, se eu me morrer de amores?”, quer frase mais clara do que esta? É que ninguém vive só de amor, como também dizem. E cá estou eu dizendo muitas coisas sem concluir coisa alguma, é que por vezes ela me toma o pensamento e já não sei se falo de mim ou se falo dela. Ela, que tem os olhos azuis que às vezes são verdes. Ela diz que quando sente muita raiva, seus olhos ficam muito verdes, e que quando está muito triste, seus olhos ficam muito azuis. Ela, que tem os olhos verdes que às vezes são azuis. Eu poderia dizer que só quero ver seus olhos sorrindo, mas seria uma grande mentira, quero ver seus olhos em todas as suas cores e em todas as suas temperaturas, assim como quero vê-la lua e como quero vê-la sol, quero vê-la nuvem e quero vê-la tempestade, quero olhar suas essências e suas aparências, pois tudo nela para mim é essencial, em última e primeira instância, já que quando estou com ela o tempo resolve voar e desaparecer. É como se o mundo desaparecesse e aparecesse continuamente. É a paixão, as coisas piscam e nós ficamos lá, a olhar, feito bestas, mas é a experiência de se estar vivo.
Tudo que sinto é novo, porque agora que ela chegou todos os sentimentos são invadidos por um pouco dela, todos os meus sentidos são novos, porque agora, quando vejo o sol nascer, vejo com a imagem dela. Aliás, a paixão sempre traz algo novo, quando se está apaixonado sente-se sempre o sabor do novo, porque a paixão é sempre fresca, porque se a paixão não fosse sempre fresca, não seria paixão, seria tédio. Há casais que são apaixonados a vida inteira, há alguns que não, embora a paixão cause a sensação de que vai durar a vida inteira, mas às vezes não dura, porém a paixão tem mil maneiras de se expressar. Pode se expressar num almoço, numa comida na boca, num olhar fixo, num olhar em fuga, num sorriso malicioso, num comentário feito para causar impressão, numa dança, numa canção murmurada, numa palavra de cuidado, também numa cena de ciúme e numa briga infundada, no fim das contas, a paixão pode levar muitas pessoas à loucura, ou, às loucuras variadas. Bem, é claro, entre loucura maior e loucura menor, a gente acaba experimentando um pouco da loucura também, deve ser impossível uma paixão sem nem uma dosezinha de loucura, já que paixão foge a normalidade e aos estados habituais e controlados do ser, paixão denota mesmo certo desequilíbrio. Isto, aliás, é um aspecto notável, pois é comum se ouvir e se dizer por aí, tal sujeito está bobo e apaixonado, ou expressões como, louco de paixão, cego de amor, morrendo de ciúmes ou, o que se aplica mais ao meu caso agora, morrendo de saudades. Fora aquela sensação, que vale mais do que qualquer expressão, aquela sensação de desespero misturado com agonia que faz a gente pensar assim “se não vê-la agora, morrerei”, e, no entanto, estas sensações vêm sempre quando estamos impedidos de ver a pessoa amada por algum motivo e no fim das contas eu mesma nunca morri de uma vez por todas, talvez em pequenos pedaços. Vou morrendo. Mas morrer não é ruim, enquanto vou morrendo, vou sentindo que estou viva. É estranho isto, ter que sentir que estou morrendo para só então sentir que estou vivendo. Assim é a paixão, faz a gente ter súbitas sensações de morte e súbitas sensações de vida, às vezes ao mesmo tempo e às vezes de modo intercalado.
A paixão é uma entrega. Entregar a si mesmo para aquele que despertou sua atenção, para seus olhos, para sua boca, para seu corpo, para suas palavras, para seus pensamentos, para os sonhos, para viver o céu e o inferno em instantes.
Bem que o poeta Vinícius disse, “Quem pagará o enterro e as flores, se eu me morrer de amores?”, quer frase mais clara do que esta? É que ninguém vive só de amor, como também dizem. E cá estou eu dizendo muitas coisas sem concluir coisa alguma, é que por vezes ela me toma o pensamento e já não sei se falo de mim ou se falo dela. Ela, que tem os olhos azuis que às vezes são verdes. Ela diz que quando sente muita raiva, seus olhos ficam muito verdes, e que quando está muito triste, seus olhos ficam muito azuis. Ela, que tem os olhos verdes que às vezes são azuis. Eu poderia dizer que só quero ver seus olhos sorrindo, mas seria uma grande mentira, quero ver seus olhos em todas as suas cores e em todas as suas temperaturas, assim como quero vê-la lua e como quero vê-la sol, quero vê-la nuvem e quero vê-la tempestade, quero olhar suas essências e suas aparências, pois tudo nela para mim é essencial, em última e primeira instância, já que quando estou com ela o tempo resolve voar e desaparecer. É como se o mundo desaparecesse e aparecesse continuamente. É a paixão, as coisas piscam e nós ficamos lá, a olhar, feito bestas, mas é a experiência de se estar vivo.
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