Para ela alguns segundos bastavam para submergir. Não me perguntem submergir onde, pode ser em tantos lugares, pode ser em lugar nenhum, pode ser para dentro ou para fora, pode ser em si ou em alheamento. E depois não há mais saída. Como andar para trás? Como voltar os passos? Como poderia ela deter seu próprio espírito se digladiando preso nas celas que ela e o mundo construíram a bel prazer. E se voltasse, não seria sem mudanças, não seria imutável, seria cheia de metamorfose, voltaria cheia de angústia e danos. Voltaria, quem sabe, purificada, molhada de pecados ou vestida de pureza. Sagaz com sorrisos subversivos ou imaculada e triste. Ela, sagaz com sorrisos que são seus e tão seus que ela sorri para o mundo ou para o submundo.
Aconteceu com ela muitas vezes de ser interrompida no meio de uma submersão, pois era obrigada a passar em meio a atmosferas contrastantes, entre mil olhos que lhe reparavam a presença a todo instante, mil olhos que lhe desprezavam sem lhe deixar de notar, de subtrair-lhe e de mesmo assim clamar por ela. Seria ela séria e imaculada? Seria ela engraçada em sua graça? Nadava entre escrúpulos e inescrúpulos. Nadava profundamente na superfície, na superfície do inacabável. Não havia tempo para voltar, e se voltasse, todo caminho a ser percorrido outra vez teria que ser o mesmo de antes. E era atacada por mil olhos parados, mas olhos que faziam rotações, voltas em torno de si mesmos, olhos infecundos, então tinha que fugir de ser ela mesma. Ela quis dizer algumas palavras, quis pronunciar e ver a voz voar da boca. Se tivesse, no mínimo, a oportunidade de dizer algumas palavras, mas nem isso, era o silêncio seu presente. Agora tinha que ir, agora não podia voltar nem adiantaria, agora era preciso continuar com o que lhe restava no rosto e no corpo, com as partes de si que ainda conseguia carregar consigo. Agora era o momento crucial de se olhar no espelho e se procurar, era o momento de resgatar sua vida, não era voltar atrás, mas era resgatar o que sempre foi seu, aproveitar que sempre foi de submergir e então ir fundo no que ainda não conhecia, mas que sabia que era preciso ir fundo. Era preciso sacrificar a segurança de ser indiferente, agora não era mais possível ser indiferente, era preciso gritar e continuar gritando quando lhe fizessem calar. Era preciso rir e continuar rindo quando lhe fizessem chorar.
Deu alguns passos e murmurou:
- Agora é a minha vez.
Como ninguém entendeu o que ela disse ou fizeram-se de desentendidos, ela não teve pudor de repetir mais alto:
- Agora é a minha vez.
Então, meio acabrunhados, mas fingindo naturalidade e com ar de superioridade, perguntaram-lhe:
- Vez do que? Está louca esta aí.
Apenas respondeu:
- Vocês sabem do estou falando.
Depois continuou seus passos e a submersão parecia-lhe um voo.
sábado, 14 de fevereiro de 2009
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