Quando eu não tenho o que pensar, eu penso nela. Quando eu não tenho o que dizer, eu falo sobre ela. Quando não tenho o que escrever, escrevo sobre ela. Estou eu aqui escrevendo sobre ela de novo. Quando eu tenho o que pensar, penso nela outra vez. Penso nela outra e outra vez. Quando não tenho o que dizer, também falo claramente dela ou escuramente dela. Falo sobre ela e falo sobre mim falando dela e falo sobre ela falando em mim. Quando tenho tudo para escrever, o mundo, as estrelas, os sóis, os anjos, as noites, as cavernas, as almas, os deuses, todos os espaços, salas e girassóis, rios e sereias, musgos e infernos, jardins e nuvens, escrevo sobre ela. Pois ela já penetrou minha existência amargamente de medos e anseios. Ela já tomou parte do meu mundo. Se a minha alma fosse um quarto, é como se lá ela passasse suas noites, como se dormisse todos os dias neste quarto e contaminasse meus sonhos. Não uma contaminação qualquer, não uma contaminação que cheira doença, embora isso possa cheirar doença também, mas uma contaminação de vida, de vidas, de pulsações. Há quem ache que paixões assim são indevidas, mas quem pode evitar o momento de sentir a explosão, o contato com o outro, o compartilhamento, sentir o mundo com o outro, essa fusão de pessoas. Porque se relacionar é assim, é uma fusão com o outro, uma difusão, uma efusão. Ou então é uma disfunção. Pois é, de repente você sai com alguém e algum tempo depois esta ouvindo as músicas que a pessoa escuta, vendo os filmes indicados pela pessoa, lendo os autores que a pessoa gosta. Isso tem um motivo simples, primeiro porque a pessoa fala disso e lhe atiça a curiosidade, segundo porque você passa muito tempo com a pessoa e acaba fazendo as coisas que a pessoa gosta, no fim das contas você está lá, no universo da pessoa. Assim como a pessoa também está no seu universo, conversando com os seus amigos, vendo os seus filmes, lendo os poemas que você gosta. Daí tudo vai se misturando, de repente não se sabe mais separar universos. Não estou querendo falar de individualidade, tampouco que se perde a individualidade por haver uma penetração de mundos, pois quando amamos é diferente, somos nós mesmos de outra forma, sendo no outro, deixando o outro ser em nós.
Tudo que sinto é novo, porque agora que ela chegou todos os sentimentos são invadidos por um pouco dela, todos os meus sentidos são novos, porque agora, quando vejo o sol nascer, vejo com a imagem dela. Aliás, a paixão sempre traz algo novo, quando se está apaixonado sente-se sempre o sabor do novo, porque a paixão é sempre fresca, porque se a paixão não fosse sempre fresca, não seria paixão, seria tédio. Há casais que são apaixonados a vida inteira, há alguns que não, embora a paixão cause a sensação de que vai durar a vida inteira, mas às vezes não dura, porém a paixão tem mil maneiras de se expressar. Pode se expressar num almoço, numa comida na boca, num olhar fixo, num olhar em fuga, num sorriso malicioso, num comentário feito para causar impressão, numa dança, numa canção murmurada, numa palavra de cuidado, também numa cena de ciúme e numa briga infundada, no fim das contas, a paixão pode levar muitas pessoas à loucura, ou, às loucuras variadas. Bem, é claro, entre loucura maior e loucura menor, a gente acaba experimentando um pouco da loucura também, deve ser impossível uma paixão sem nem uma dosezinha de loucura, já que paixão foge a normalidade e aos estados habituais e controlados do ser, paixão denota mesmo certo desequilíbrio. Isto, aliás, é um aspecto notável, pois é comum se ouvir e se dizer por aí, tal sujeito está bobo e apaixonado, ou expressões como, louco de paixão, cego de amor, morrendo de ciúmes ou, o que se aplica mais ao meu caso agora, morrendo de saudades. Fora aquela sensação, que vale mais do que qualquer expressão, aquela sensação de desespero misturado com agonia que faz a gente pensar assim “se não vê-la agora, morrerei”, e, no entanto, estas sensações vêm sempre quando estamos impedidos de ver a pessoa amada por algum motivo e no fim das contas eu mesma nunca morri de uma vez por todas, talvez em pequenos pedaços. Vou morrendo. Mas morrer não é ruim, enquanto vou morrendo, vou sentindo que estou viva. É estranho isto, ter que sentir que estou morrendo para só então sentir que estou vivendo. Assim é a paixão, faz a gente ter súbitas sensações de morte e súbitas sensações de vida, às vezes ao mesmo tempo e às vezes de modo intercalado.
A paixão é uma entrega. Entregar a si mesmo para aquele que despertou sua atenção, para seus olhos, para sua boca, para seu corpo, para suas palavras, para seus pensamentos, para os sonhos, para viver o céu e o inferno em instantes.
Bem que o poeta Vinícius disse, “Quem pagará o enterro e as flores, se eu me morrer de amores?”, quer frase mais clara do que esta? É que ninguém vive só de amor, como também dizem. E cá estou eu dizendo muitas coisas sem concluir coisa alguma, é que por vezes ela me toma o pensamento e já não sei se falo de mim ou se falo dela. Ela, que tem os olhos azuis que às vezes são verdes. Ela diz que quando sente muita raiva, seus olhos ficam muito verdes, e que quando está muito triste, seus olhos ficam muito azuis. Ela, que tem os olhos verdes que às vezes são azuis. Eu poderia dizer que só quero ver seus olhos sorrindo, mas seria uma grande mentira, quero ver seus olhos em todas as suas cores e em todas as suas temperaturas, assim como quero vê-la lua e como quero vê-la sol, quero vê-la nuvem e quero vê-la tempestade, quero olhar suas essências e suas aparências, pois tudo nela para mim é essencial, em última e primeira instância, já que quando estou com ela o tempo resolve voar e desaparecer. É como se o mundo desaparecesse e aparecesse continuamente. É a paixão, as coisas piscam e nós ficamos lá, a olhar, feito bestas, mas é a experiência de se estar vivo.
terça-feira, 3 de fevereiro de 2009
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2 comentários:
Uau!!!
Também morro de saudades!!!
Te adoro!!!
Bjos cheios de volúpia!!!
Continuo só pensando nela...
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