Ela percebeu, qualquer um perceberia, que cheguei um pouco bêbada em sua casa.
Cheguei um pouco bêbada e um pouco triste, porém não cheguei a implorar um ombro para chorar, não cheguei a cuspir pela janela nem a falar que tudo era sem sentido, que viver era como gritar com um surdo ou pintar para um cego, não cheguei a reclamar de mim mesma, nem a mal dizer o mundo, apenas pedi para ela colocar aquele CD do Tom Waits que tanto gosto. Meu coração estava nublado e sem trovões, sem ruídos.
Ela fez um sutil comentário de que já estava tarde, ao qual eu fingi não ouvir, o relógio dela sempre corria mais rápido do que o meu.
Deitei em seu colchão velho e amarelado que cheirava mofo; nenhuma posição era cômoda, qualquer lado em que virasse sentia meus músculos contraídos ou relaxados demais. Insisti que não se incomodasse comigo, que eu sou assim meio soturna mesmo, que não queria nada, apenas ficar quieta e, de preferência, não ter que pensar muitas coisas, mas que talvez fosse melhor ir embora, pois nem sabia ao certo porque tinha vindo. Contei até dez, respirei uma última vez o odor de sua casa, de seus objetos, da atmosfera de sua presença, então, disse tchau.
É sempre assim quando me despeço sem querer de fato ir embora, sempre tenho que respirar fundo, sempre tenho que contar alguns números, sempre tenho que dizer mentalmente “Vá embora agora, não vale a pena ficar, não seja inconveniente, tenha mais orgulho”.
Sabia que ao chegar em casa eu ainda poderia conversar com as plantas. Que meu cachorro viria me receber com empolgação, embora este não fosse um dia alegre para mim, mas meu cachorro não sabia disto, eu teria que contar a ele como me sentia e como queria ficar sozinha e como, por vezes, é ruim a solidão, mas que o melhor era que ele voltasse a dormir.
Chutei pedrinhas pela calçada, reparei a lua minguando.
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