Fria tarde distante
Fria a cor da noite caindo
Fria sensação
Frio sentido
Frio vento do sopro de sua boca
Frio caminho de minha alma
Noite muito fria
Entre eu e a lua
O abismo
Entre eu e a lua
O abismo
Entre eu e a luz
O céu abismo da noite
Meu corpo frio
Minha alma gélida
Frias lembranças
Nas montanhas geladas
Dos meus sonhos
Mas o calor dos sonhos
A alma gritava
O que somente seres invisíveis ouviam
Fria noite
Frios fantasmas que me habitam
Fria lua que me chama
Fio de luz espiralado no abismo
Fria luz que me chama
Frio sentido
Fria sensação
Frio o vento do sopro de sua boca
Frio caminho de minha alma
quarta-feira, 25 de novembro de 2009
Eu e você
Eu e você,
Soltem os cães!
Meu Deus!
Caio bêbada na sala,
Jogo no teu rosto,
Minha saia!
Eu com você,
Falo palavras a contragosto,
Tudo para fazer o teu gosto,
E dar com a cara no fundo do poço!
Eu e você,
Pelo amor de Deus,
Soltem os cães,
Que estou de antemão,
Puxando o freio de mão!
Ouço cacos de palavras...
Quem ata os laços?
Quem os desata?
Eu e você,
O que nos vem?
O que veio?
Como cheguei?
Como terei que sair?
Eu e você,
Como assim,
Não tem fim,
Não tem fim...
Soltem os cães!
Meu Deus!
Caio bêbada na sala,
Jogo no teu rosto,
Minha saia!
Eu com você,
Falo palavras a contragosto,
Tudo para fazer o teu gosto,
E dar com a cara no fundo do poço!
Eu e você,
Pelo amor de Deus,
Soltem os cães,
Que estou de antemão,
Puxando o freio de mão!
Ouço cacos de palavras...
Quem ata os laços?
Quem os desata?
Eu e você,
O que nos vem?
O que veio?
Como cheguei?
Como terei que sair?
Eu e você,
Como assim,
Não tem fim,
Não tem fim...
quarta-feira, 1 de abril de 2009
Algumas estrelas douradas
Algumas estrelas douradas!
Infinitas, Infinitas idas, infinitas idas e vindas, infinitas idas e vindas e lindas, infinitas.
Os mares e as marés,
Águas que cortam o vento,
Ventos que cortam a água,
Raios que cortam o tempo,
O sol nutrindo ou queimando as paisagens,
Retratos e contornos abstratos nas nuvens,
As sombras nos cantos, nos recantos e nos aposentos,
As flores suspirando dolosamente doçuras,
O ar espreitando os ruídos,
Os ruídos cegando os ouvidos,
Os ouvidos calando sempre,
Tive que continuar seguindo para onde iam meus passos,
Tive que continuar seguindo onde eu seguia há tempos,
Mas tremiam os músculos,
Os músculos,
Os músculos feito moluscos,
Tremiam como miam os gatos!
Onde estão as estrelas douradas,
Num pódio, num palco, na merda?
Onde está o céu,
Onde estão as estrelas,
No universo?
Universo?
Universo?
Universo?
Universo?
Universo?
Universo?
Universo?
Universo?
Universo?
sexta-feira, 20 de março de 2009
Em largos passos um desviado espaço
Em largos passos um desviado espaço
Em largas falas palavras caladas
Em largos tempos espaçados momentos
Em lagartos lagartas em barcos e remos
Abandonados vemos paisagens sendo deixadas num caminho que fica para trás
Um espetáculo barato de dinheiro em alto valor
Um espetáculo barato de papel e letreiros e placas e andaimes em avenidas movimentadas por pessoas movimentadas em mil atos estáticos
Ah, que personalidade curiosa e feia! Ah, que ruidoso cuidado rude! Ah, que voz surrada, sussurrada e surda meu coração espanca! Ah, por onde era o vento que passava lento no relento! Vou ficando sombria nesta tarde vazia de luz!
Outras horas percorrem uma história confusa de si
Não era bem isso tudo que eu queria dizer
Eu me dissolvi e fui indo como, como, como, como, metáfora de mim, metáfora de nós.
Só pretendia um sorriso que não fosse de reflexo
Um sorriso de mim escorrendo em seus lábios e de seus lábios escorrendo em meus lábios
Um sorriso que escorre e mancha a paisagem assim como a paisagem mancha o sorriso
Uma paisagem de árvores e focas
Uma paisagem de águas e flores
Uma paisagem de montanhas e amores
Uma paisagem de gosto e sabores
Uma paisagem silvestre de frutas coloridas
Uma paisagem que não é uma natureza morta
Que não é um poema
Que não é uma submissão
Que é a mais alta paixão e compaixão
Ao longo de uma missão
Que não é simples persuasão
É a misteriosa criação de viver
Um caminho destrevado destravado deslustrado deslocado escutado Um caminho destrevado destravado deslustrado deslocado escutado
Um caminho destrevado destravado deslustrado deslocado escutado
Avistei um grupo de vampiros
Agrupei minhas vistas em outras vistas
Soterrei algumas dores enquanto desabrochei outras
Assim como enterrei alguns sorrisos e ressuscito todos os dias antigos sorrisos
Sempre vou e bamboleio e desequilibro e sou frágil e sou forte e sou magra e sou gorda e sou estreita e sou larga e vou como quem anda num caminho longo muito longo inf...
Não gosto do NÃO irrefletido
Também não gosto do SIM desenfreado
Prefiro os paralelos os elos os duelos e os versos amarelos enfeitados de cogumelos juntando farelos de olhares esgoelos num caminho que não vai em caídas de meros versos tristes e lentos e pobres sempre salgados
Tem uma flutuação e várias rampas que sobem e descem e sobem e descem e sobem e desce Mas que é completamente diversa da montanha russa, porque é uma brisa, uma tempestade, um vento, uma chuva fina, uma agrupação de gotas grossas prenunciadas por um trovão, ou um rio que corre sempre na mesma direção, um rio que vai descendo como descem os rios, são versos embarcação que tentam exister e sobreviver apesar das graves tempestades.
Tenho um encontro com alguém que ainda não conheço, ainda não fui para o lado que é o outro, mas vim de lá, vim de mim, de um encontro para qual caminho.
Terei tempo
Quem sabe
Quanto tempo tenho?
Quanto tempo temos?
Quanto tempo tu tens?
Quanto tempo a história, os pertences, os deuses, os moradores, os abandonados, as circunscrições do universo, quanto tempo, um resto, uma vida, um nada distribuído em unidades de fraqueza, quanto tempo tem o bicho que mora em mim, o bicho que mora em nós, quanto tempo tem a nossa separação, a nossa individualidade, a nossa retardação, a nossa física de acontecimentos vulneráveis, e o prolongamento de quase o avesso das coisas que perpassam uma idéia secular e duradoura, que principia aqui e acaba aqui mas tem séculos milênios
Nos restaurantes um pouco de sobremesa
Nas mesas um pouco de purezas mal disfarçadas
Nas mentes um pouco de escrúpulos mal guardados e mal articulados mal passados
Quem não tem relógio Quem não é uma máquina Quem tem vontades Quem tem anseios Quem tem um pouco de um pouco de bem pouco do que se oferece todos os dias Quem não experimenta apenas a superfície Transforma a vida em VIDAS, a arte em ARTES, a sombra em SOMBRAS, a luz em LUZES, a levitação em LEVITAÇÕES, o espaço em ESPAÇO, em ESPAÇO, em ESPAÇO, em ESPAÇOS espaçados próximos, em APROXIMAÇÕES, em outras versões de meditação, em mediterrâneos de sublimação, explanação, associação.
O desejo viaja no coração e mora no infindável, viaja como uma pena no vento, numa enorme aventura.
quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009
Não ser a mesma dos retratos
Não ser a mesma dos retratos.
Não a mesma das ocasiões favoráveis.
As mesmas das contradições, sempre as mesmas.
As escolhas aceitáveis.
As escolhas inaceitáveis.
Não é possível viver tudo sem viver o nada.
É muito estranho que me falte o que me resta e que me sobre o que me falta.
É muito estranho, mas a ausência é um presente indelicado do excesso de espaço,
É muito estranho esse tempo rápido e esse mal acabado cansaço.
Tudo o mais é como um vago fantasma,
Calado na noite exausta do dia.
Nem posso dizer que isso se aproxime do silêncio, pois vejo imagens tagarelas, enquanto ninguém diz nada, enquanto evita-se tocar no assunto.
Mas como alguém que se esquece de colocar os saltos e sente-se desequilibrado sem ele, percebi-me caindo.
E eu quisera ter tomado todas, mas estava completamente em mim, deparando-me comigo, atropelando-me.
Só pensava em partida.
A partida, a partida, a partida! A partida, a partida, a partida...
Todos os olhares diferentes.
E a expressão simples ficou intensa nos sonhos.
Muitas vezes o que é pequeno nos gestos pode ser enorme no fundo do coração,
E tudo se explode em sonhos.
Ela vive e morre nos sonhos.
Nos meus sonhos ela está vivendo e morrendo várias vezes.
Eu vivo e morro nos sonhos.
Nos meus sonhos eu estou vivendo e morrendo várias vezes.
Olho tantas vezes.
Digo palavras que preciso e tento conter o indeciso, mas isso tudo não é bem preciso.
Não a mesma das ocasiões favoráveis.
As mesmas das contradições, sempre as mesmas.
As escolhas aceitáveis.
As escolhas inaceitáveis.
Não é possível viver tudo sem viver o nada.
É muito estranho que me falte o que me resta e que me sobre o que me falta.
É muito estranho, mas a ausência é um presente indelicado do excesso de espaço,
É muito estranho esse tempo rápido e esse mal acabado cansaço.
Tudo o mais é como um vago fantasma,
Calado na noite exausta do dia.
Nem posso dizer que isso se aproxime do silêncio, pois vejo imagens tagarelas, enquanto ninguém diz nada, enquanto evita-se tocar no assunto.
Mas como alguém que se esquece de colocar os saltos e sente-se desequilibrado sem ele, percebi-me caindo.
E eu quisera ter tomado todas, mas estava completamente em mim, deparando-me comigo, atropelando-me.
Só pensava em partida.
A partida, a partida, a partida! A partida, a partida, a partida...
Todos os olhares diferentes.
E a expressão simples ficou intensa nos sonhos.
Muitas vezes o que é pequeno nos gestos pode ser enorme no fundo do coração,
E tudo se explode em sonhos.
Ela vive e morre nos sonhos.
Nos meus sonhos ela está vivendo e morrendo várias vezes.
Eu vivo e morro nos sonhos.
Nos meus sonhos eu estou vivendo e morrendo várias vezes.
Olho tantas vezes.
Digo palavras que preciso e tento conter o indeciso, mas isso tudo não é bem preciso.
Dentre céus azuis e cavernas cinzas
Dentre céus azuis e cavernas cinzas
Procurando seus traços
Passos caídos nos espaços
Ainda corro em meus cansaços
Minha vida seria
Vagar como espírito em sombras
Na captação da futura alegria
No entanto o rodar numa rotina de ausências
Desejaria quebrar a atmosfera de rocha gelada
Mas eu apenas mais uma louca pela rua
Observando as feições dos bêbados
Jamais ao dia
Olhos que reluzem num poço escuro
Eu tentando cortar o ar
Numa hora tardia em que se dorme
Dentre céus cinzas e cavernas azuis
Procurando suas bocas
Marcas de batom borradas nos espaços
Minha vida seria
Andar como um anjo sem rumo
Na captação da presença futura
No entanto o rodar numa rotina de ausências
Desejaria atravessar as paredes
Mas eu apenas uma mulher sentada na poltrona da sala
Observando as paisagens enquadradas pela janela.
Continuamente na noite
Na eterna escuridão
Meus olhos se reduzindo a penumbra
Meu crepúsculo tentando perpassar a luz
A certeza de um momento e de eterno movimento
Ainda corro em meus cansaços.
segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009
O vento venta ventando o tempo agora
O vento venta ventando o tempo agora,
A chuva chove chovendo mares hoje,
Eu crio-me recriando-me por onde ando,
Mas não me tenho não me contenho,
Não entendo nem pretendo nenhum remendo,
Demoro-me por onde moro,
Esbugalho os galhos em que me agarro,
Depois lastimo uma lágrima lavada,
Outra lágrima levada,
Desastrosa enxurrada.
A chuva chove chovendo mares hoje,
Eu crio-me recriando-me por onde ando,
Mas não me tenho não me contenho,
Não entendo nem pretendo nenhum remendo,
Demoro-me por onde moro,
Esbugalho os galhos em que me agarro,
Depois lastimo uma lágrima lavada,
Outra lágrima levada,
Desastrosa enxurrada.
sábado, 14 de fevereiro de 2009
Submersão
Para ela alguns segundos bastavam para submergir. Não me perguntem submergir onde, pode ser em tantos lugares, pode ser em lugar nenhum, pode ser para dentro ou para fora, pode ser em si ou em alheamento. E depois não há mais saída. Como andar para trás? Como voltar os passos? Como poderia ela deter seu próprio espírito se digladiando preso nas celas que ela e o mundo construíram a bel prazer. E se voltasse, não seria sem mudanças, não seria imutável, seria cheia de metamorfose, voltaria cheia de angústia e danos. Voltaria, quem sabe, purificada, molhada de pecados ou vestida de pureza. Sagaz com sorrisos subversivos ou imaculada e triste. Ela, sagaz com sorrisos que são seus e tão seus que ela sorri para o mundo ou para o submundo.
Aconteceu com ela muitas vezes de ser interrompida no meio de uma submersão, pois era obrigada a passar em meio a atmosferas contrastantes, entre mil olhos que lhe reparavam a presença a todo instante, mil olhos que lhe desprezavam sem lhe deixar de notar, de subtrair-lhe e de mesmo assim clamar por ela. Seria ela séria e imaculada? Seria ela engraçada em sua graça? Nadava entre escrúpulos e inescrúpulos. Nadava profundamente na superfície, na superfície do inacabável. Não havia tempo para voltar, e se voltasse, todo caminho a ser percorrido outra vez teria que ser o mesmo de antes. E era atacada por mil olhos parados, mas olhos que faziam rotações, voltas em torno de si mesmos, olhos infecundos, então tinha que fugir de ser ela mesma. Ela quis dizer algumas palavras, quis pronunciar e ver a voz voar da boca. Se tivesse, no mínimo, a oportunidade de dizer algumas palavras, mas nem isso, era o silêncio seu presente. Agora tinha que ir, agora não podia voltar nem adiantaria, agora era preciso continuar com o que lhe restava no rosto e no corpo, com as partes de si que ainda conseguia carregar consigo. Agora era o momento crucial de se olhar no espelho e se procurar, era o momento de resgatar sua vida, não era voltar atrás, mas era resgatar o que sempre foi seu, aproveitar que sempre foi de submergir e então ir fundo no que ainda não conhecia, mas que sabia que era preciso ir fundo. Era preciso sacrificar a segurança de ser indiferente, agora não era mais possível ser indiferente, era preciso gritar e continuar gritando quando lhe fizessem calar. Era preciso rir e continuar rindo quando lhe fizessem chorar.
Deu alguns passos e murmurou:
- Agora é a minha vez.
Como ninguém entendeu o que ela disse ou fizeram-se de desentendidos, ela não teve pudor de repetir mais alto:
- Agora é a minha vez.
Então, meio acabrunhados, mas fingindo naturalidade e com ar de superioridade, perguntaram-lhe:
- Vez do que? Está louca esta aí.
Apenas respondeu:
- Vocês sabem do estou falando.
Depois continuou seus passos e a submersão parecia-lhe um voo.
Aconteceu com ela muitas vezes de ser interrompida no meio de uma submersão, pois era obrigada a passar em meio a atmosferas contrastantes, entre mil olhos que lhe reparavam a presença a todo instante, mil olhos que lhe desprezavam sem lhe deixar de notar, de subtrair-lhe e de mesmo assim clamar por ela. Seria ela séria e imaculada? Seria ela engraçada em sua graça? Nadava entre escrúpulos e inescrúpulos. Nadava profundamente na superfície, na superfície do inacabável. Não havia tempo para voltar, e se voltasse, todo caminho a ser percorrido outra vez teria que ser o mesmo de antes. E era atacada por mil olhos parados, mas olhos que faziam rotações, voltas em torno de si mesmos, olhos infecundos, então tinha que fugir de ser ela mesma. Ela quis dizer algumas palavras, quis pronunciar e ver a voz voar da boca. Se tivesse, no mínimo, a oportunidade de dizer algumas palavras, mas nem isso, era o silêncio seu presente. Agora tinha que ir, agora não podia voltar nem adiantaria, agora era preciso continuar com o que lhe restava no rosto e no corpo, com as partes de si que ainda conseguia carregar consigo. Agora era o momento crucial de se olhar no espelho e se procurar, era o momento de resgatar sua vida, não era voltar atrás, mas era resgatar o que sempre foi seu, aproveitar que sempre foi de submergir e então ir fundo no que ainda não conhecia, mas que sabia que era preciso ir fundo. Era preciso sacrificar a segurança de ser indiferente, agora não era mais possível ser indiferente, era preciso gritar e continuar gritando quando lhe fizessem calar. Era preciso rir e continuar rindo quando lhe fizessem chorar.
Deu alguns passos e murmurou:
- Agora é a minha vez.
Como ninguém entendeu o que ela disse ou fizeram-se de desentendidos, ela não teve pudor de repetir mais alto:
- Agora é a minha vez.
Então, meio acabrunhados, mas fingindo naturalidade e com ar de superioridade, perguntaram-lhe:
- Vez do que? Está louca esta aí.
Apenas respondeu:
- Vocês sabem do estou falando.
Depois continuou seus passos e a submersão parecia-lhe um voo.
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Contos e Crônicas
quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009
Seus olhos amarelos
Você passa rasgando minha alma,
Como se fosse simples pedaço de papel,
Simples tecido no corpo.
Fecho os olhos
E você já se foi,
Jovem de cabelos dourados,
Mergulhada na loucura,
Obcecada pela obsessão,
Transladada pela irrealidade da realidade.
Irradiando luz dos olhos amarelos
Por onde você corre,
Por onde você voa,
Nas avenidas cruzadas cheias de carros metálicos,
Nos caminhos oblíquos cheios de bêbados desiludidos,
Nas suas palavras mentirosas cheias de poesia.
O branco da lua seduz o negro da noite,
Mas falta luz no meu coração angustiado.
De repente seus olhos encontram o meu,
Seus olhos batem no meu,
Seus olhos acariciam meu olhar,
Seus olhos amarelos de flor fora de estação.
Como se fosse simples pedaço de papel,
Simples tecido no corpo.
Fecho os olhos
E você já se foi,
Jovem de cabelos dourados,
Mergulhada na loucura,
Obcecada pela obsessão,
Transladada pela irrealidade da realidade.
Irradiando luz dos olhos amarelos
Por onde você corre,
Por onde você voa,
Nas avenidas cruzadas cheias de carros metálicos,
Nos caminhos oblíquos cheios de bêbados desiludidos,
Nas suas palavras mentirosas cheias de poesia.
O branco da lua seduz o negro da noite,
Mas falta luz no meu coração angustiado.
De repente seus olhos encontram o meu,
Seus olhos batem no meu,
Seus olhos acariciam meu olhar,
Seus olhos amarelos de flor fora de estação.
Continuo
O céu de horizonte alaranjado
Mostra para mim o tempo,
Falando-me com palavras visuais,
Imagéticas e belas,
A paisagem que se estende.
Então sei,
Continuo sem parar,
Vejo meu destino,
Luz diluída no espaço,
Trevas diluídas em luz,
Sigo perdida minha luz no espaço de trevas em luz.
Continuo o caminho que descontinua em mim,
Descortinando a vida desferida nas esquinas,
Continuo meus atos,
Meus gestos,
Meu ódio,
Meu amor,
Meu carinho inocente e infantil.
Continuo, não paro porque é impossível,
Impossível deter a vida correndo em mim,
Inútil entorpecer a dor de viver,
O prazer de viver,
Por isso sigo a luz diluída no espaço.
No caminho pétalas caídas em pedras,
Pedras caídas em pétalas,
Caminho de pétalas em pedras,
Pedras em pétalas.
E no caminho, meus pés,
Movimento contínuo,
Meu corpo,
Caminho no vento,
Meu coração,
Na contínua pulsação,
Posso sentir
Meu sangue percorrendo-me.
Mostra para mim o tempo,
Falando-me com palavras visuais,
Imagéticas e belas,
A paisagem que se estende.
Então sei,
Continuo sem parar,
Vejo meu destino,
Luz diluída no espaço,
Trevas diluídas em luz,
Sigo perdida minha luz no espaço de trevas em luz.
Continuo o caminho que descontinua em mim,
Descortinando a vida desferida nas esquinas,
Continuo meus atos,
Meus gestos,
Meu ódio,
Meu amor,
Meu carinho inocente e infantil.
Continuo, não paro porque é impossível,
Impossível deter a vida correndo em mim,
Inútil entorpecer a dor de viver,
O prazer de viver,
Por isso sigo a luz diluída no espaço.
No caminho pétalas caídas em pedras,
Pedras caídas em pétalas,
Caminho de pétalas em pedras,
Pedras em pétalas.
E no caminho, meus pés,
Movimento contínuo,
Meu corpo,
Caminho no vento,
Meu coração,
Na contínua pulsação,
Posso sentir
Meu sangue percorrendo-me.
Assim longe
Assim longe,
Tentando um tato nos sonhos,
Procuro e não encontro,
Uns lábios que são vermelhos,
E são doces,
E são seus,
Mas só acho amargo,
Apenas ausência e azul.
Tentando um tato nos sonhos,
Procuro e não encontro,
Uns lábios que são vermelhos,
E são doces,
E são seus,
Mas só acho amargo,
Apenas ausência e azul.
terça-feira, 3 de fevereiro de 2009
Sobre a paixão
Quando eu não tenho o que pensar, eu penso nela. Quando eu não tenho o que dizer, eu falo sobre ela. Quando não tenho o que escrever, escrevo sobre ela. Estou eu aqui escrevendo sobre ela de novo. Quando eu tenho o que pensar, penso nela outra vez. Penso nela outra e outra vez. Quando não tenho o que dizer, também falo claramente dela ou escuramente dela. Falo sobre ela e falo sobre mim falando dela e falo sobre ela falando em mim. Quando tenho tudo para escrever, o mundo, as estrelas, os sóis, os anjos, as noites, as cavernas, as almas, os deuses, todos os espaços, salas e girassóis, rios e sereias, musgos e infernos, jardins e nuvens, escrevo sobre ela. Pois ela já penetrou minha existência amargamente de medos e anseios. Ela já tomou parte do meu mundo. Se a minha alma fosse um quarto, é como se lá ela passasse suas noites, como se dormisse todos os dias neste quarto e contaminasse meus sonhos. Não uma contaminação qualquer, não uma contaminação que cheira doença, embora isso possa cheirar doença também, mas uma contaminação de vida, de vidas, de pulsações. Há quem ache que paixões assim são indevidas, mas quem pode evitar o momento de sentir a explosão, o contato com o outro, o compartilhamento, sentir o mundo com o outro, essa fusão de pessoas. Porque se relacionar é assim, é uma fusão com o outro, uma difusão, uma efusão. Ou então é uma disfunção. Pois é, de repente você sai com alguém e algum tempo depois esta ouvindo as músicas que a pessoa escuta, vendo os filmes indicados pela pessoa, lendo os autores que a pessoa gosta. Isso tem um motivo simples, primeiro porque a pessoa fala disso e lhe atiça a curiosidade, segundo porque você passa muito tempo com a pessoa e acaba fazendo as coisas que a pessoa gosta, no fim das contas você está lá, no universo da pessoa. Assim como a pessoa também está no seu universo, conversando com os seus amigos, vendo os seus filmes, lendo os poemas que você gosta. Daí tudo vai se misturando, de repente não se sabe mais separar universos. Não estou querendo falar de individualidade, tampouco que se perde a individualidade por haver uma penetração de mundos, pois quando amamos é diferente, somos nós mesmos de outra forma, sendo no outro, deixando o outro ser em nós.
Tudo que sinto é novo, porque agora que ela chegou todos os sentimentos são invadidos por um pouco dela, todos os meus sentidos são novos, porque agora, quando vejo o sol nascer, vejo com a imagem dela. Aliás, a paixão sempre traz algo novo, quando se está apaixonado sente-se sempre o sabor do novo, porque a paixão é sempre fresca, porque se a paixão não fosse sempre fresca, não seria paixão, seria tédio. Há casais que são apaixonados a vida inteira, há alguns que não, embora a paixão cause a sensação de que vai durar a vida inteira, mas às vezes não dura, porém a paixão tem mil maneiras de se expressar. Pode se expressar num almoço, numa comida na boca, num olhar fixo, num olhar em fuga, num sorriso malicioso, num comentário feito para causar impressão, numa dança, numa canção murmurada, numa palavra de cuidado, também numa cena de ciúme e numa briga infundada, no fim das contas, a paixão pode levar muitas pessoas à loucura, ou, às loucuras variadas. Bem, é claro, entre loucura maior e loucura menor, a gente acaba experimentando um pouco da loucura também, deve ser impossível uma paixão sem nem uma dosezinha de loucura, já que paixão foge a normalidade e aos estados habituais e controlados do ser, paixão denota mesmo certo desequilíbrio. Isto, aliás, é um aspecto notável, pois é comum se ouvir e se dizer por aí, tal sujeito está bobo e apaixonado, ou expressões como, louco de paixão, cego de amor, morrendo de ciúmes ou, o que se aplica mais ao meu caso agora, morrendo de saudades. Fora aquela sensação, que vale mais do que qualquer expressão, aquela sensação de desespero misturado com agonia que faz a gente pensar assim “se não vê-la agora, morrerei”, e, no entanto, estas sensações vêm sempre quando estamos impedidos de ver a pessoa amada por algum motivo e no fim das contas eu mesma nunca morri de uma vez por todas, talvez em pequenos pedaços. Vou morrendo. Mas morrer não é ruim, enquanto vou morrendo, vou sentindo que estou viva. É estranho isto, ter que sentir que estou morrendo para só então sentir que estou vivendo. Assim é a paixão, faz a gente ter súbitas sensações de morte e súbitas sensações de vida, às vezes ao mesmo tempo e às vezes de modo intercalado.
A paixão é uma entrega. Entregar a si mesmo para aquele que despertou sua atenção, para seus olhos, para sua boca, para seu corpo, para suas palavras, para seus pensamentos, para os sonhos, para viver o céu e o inferno em instantes.
Bem que o poeta Vinícius disse, “Quem pagará o enterro e as flores, se eu me morrer de amores?”, quer frase mais clara do que esta? É que ninguém vive só de amor, como também dizem. E cá estou eu dizendo muitas coisas sem concluir coisa alguma, é que por vezes ela me toma o pensamento e já não sei se falo de mim ou se falo dela. Ela, que tem os olhos azuis que às vezes são verdes. Ela diz que quando sente muita raiva, seus olhos ficam muito verdes, e que quando está muito triste, seus olhos ficam muito azuis. Ela, que tem os olhos verdes que às vezes são azuis. Eu poderia dizer que só quero ver seus olhos sorrindo, mas seria uma grande mentira, quero ver seus olhos em todas as suas cores e em todas as suas temperaturas, assim como quero vê-la lua e como quero vê-la sol, quero vê-la nuvem e quero vê-la tempestade, quero olhar suas essências e suas aparências, pois tudo nela para mim é essencial, em última e primeira instância, já que quando estou com ela o tempo resolve voar e desaparecer. É como se o mundo desaparecesse e aparecesse continuamente. É a paixão, as coisas piscam e nós ficamos lá, a olhar, feito bestas, mas é a experiência de se estar vivo.
Tudo que sinto é novo, porque agora que ela chegou todos os sentimentos são invadidos por um pouco dela, todos os meus sentidos são novos, porque agora, quando vejo o sol nascer, vejo com a imagem dela. Aliás, a paixão sempre traz algo novo, quando se está apaixonado sente-se sempre o sabor do novo, porque a paixão é sempre fresca, porque se a paixão não fosse sempre fresca, não seria paixão, seria tédio. Há casais que são apaixonados a vida inteira, há alguns que não, embora a paixão cause a sensação de que vai durar a vida inteira, mas às vezes não dura, porém a paixão tem mil maneiras de se expressar. Pode se expressar num almoço, numa comida na boca, num olhar fixo, num olhar em fuga, num sorriso malicioso, num comentário feito para causar impressão, numa dança, numa canção murmurada, numa palavra de cuidado, também numa cena de ciúme e numa briga infundada, no fim das contas, a paixão pode levar muitas pessoas à loucura, ou, às loucuras variadas. Bem, é claro, entre loucura maior e loucura menor, a gente acaba experimentando um pouco da loucura também, deve ser impossível uma paixão sem nem uma dosezinha de loucura, já que paixão foge a normalidade e aos estados habituais e controlados do ser, paixão denota mesmo certo desequilíbrio. Isto, aliás, é um aspecto notável, pois é comum se ouvir e se dizer por aí, tal sujeito está bobo e apaixonado, ou expressões como, louco de paixão, cego de amor, morrendo de ciúmes ou, o que se aplica mais ao meu caso agora, morrendo de saudades. Fora aquela sensação, que vale mais do que qualquer expressão, aquela sensação de desespero misturado com agonia que faz a gente pensar assim “se não vê-la agora, morrerei”, e, no entanto, estas sensações vêm sempre quando estamos impedidos de ver a pessoa amada por algum motivo e no fim das contas eu mesma nunca morri de uma vez por todas, talvez em pequenos pedaços. Vou morrendo. Mas morrer não é ruim, enquanto vou morrendo, vou sentindo que estou viva. É estranho isto, ter que sentir que estou morrendo para só então sentir que estou vivendo. Assim é a paixão, faz a gente ter súbitas sensações de morte e súbitas sensações de vida, às vezes ao mesmo tempo e às vezes de modo intercalado.
A paixão é uma entrega. Entregar a si mesmo para aquele que despertou sua atenção, para seus olhos, para sua boca, para seu corpo, para suas palavras, para seus pensamentos, para os sonhos, para viver o céu e o inferno em instantes.
Bem que o poeta Vinícius disse, “Quem pagará o enterro e as flores, se eu me morrer de amores?”, quer frase mais clara do que esta? É que ninguém vive só de amor, como também dizem. E cá estou eu dizendo muitas coisas sem concluir coisa alguma, é que por vezes ela me toma o pensamento e já não sei se falo de mim ou se falo dela. Ela, que tem os olhos azuis que às vezes são verdes. Ela diz que quando sente muita raiva, seus olhos ficam muito verdes, e que quando está muito triste, seus olhos ficam muito azuis. Ela, que tem os olhos verdes que às vezes são azuis. Eu poderia dizer que só quero ver seus olhos sorrindo, mas seria uma grande mentira, quero ver seus olhos em todas as suas cores e em todas as suas temperaturas, assim como quero vê-la lua e como quero vê-la sol, quero vê-la nuvem e quero vê-la tempestade, quero olhar suas essências e suas aparências, pois tudo nela para mim é essencial, em última e primeira instância, já que quando estou com ela o tempo resolve voar e desaparecer. É como se o mundo desaparecesse e aparecesse continuamente. É a paixão, as coisas piscam e nós ficamos lá, a olhar, feito bestas, mas é a experiência de se estar vivo.
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Contos e Crônicas
quinta-feira, 29 de janeiro de 2009
Minha boca é de poucas pronúncias
Minha boca é de poucas pronúncias
Meus olhos são de pouco silêncio
Meu coração são muitas batidas
Meus sonhos são infindáveis imagens
E vozes que se lançam no escuro
Vozes invisíveis
Imagens mudas
Vozes visíveis
Imagens nudas
Vozes cegas
Imagens surdas
Teias prolixas
Meus olhos são de eternas palavras
Minha boca de efêmeras delícias
Minha mão tocou o ombro do meu coração
O qual sussurrou sonhos
E eu murmurei desejos a todas as sombras
Minhas sombras se espalharam
Todas as luzes que me desenhando
Contornavam as minhas silhuetas
No chão nos muros ou nos objetos quaisquers
Todos os meus habitantes partiram para lados opostos
E todos me chamavam com anseio
Alguns sorriam
Outros explodiam
Uns cheiravam a flores
Outros cheiravam vermelho sangue
Eram incontáveis vozes
Incontáveis acenos
E cada qual se diluía em outros
Como uma dança de algas.
Meus olhos são de pouco silêncio
Meu coração são muitas batidas
Meus sonhos são infindáveis imagens
E vozes que se lançam no escuro
Vozes invisíveis
Imagens mudas
Vozes visíveis
Imagens nudas
Vozes cegas
Imagens surdas
Teias prolixas
Meus olhos são de eternas palavras
Minha boca de efêmeras delícias
Minha mão tocou o ombro do meu coração
O qual sussurrou sonhos
E eu murmurei desejos a todas as sombras
Minhas sombras se espalharam
Todas as luzes que me desenhando
Contornavam as minhas silhuetas
No chão nos muros ou nos objetos quaisquers
Todos os meus habitantes partiram para lados opostos
E todos me chamavam com anseio
Alguns sorriam
Outros explodiam
Uns cheiravam a flores
Outros cheiravam vermelho sangue
Eram incontáveis vozes
Incontáveis acenos
E cada qual se diluía em outros
Como uma dança de algas.
Escuto quando tua boca cala
Escuto quando tua boca cala
E tua pele lisa escorrega em pedidos que são a tua voz,
Mas tu sempre tímido.
Vejo o que o teu corpo esconde
E teus olhos desenham em cores,
Mas tu sempre longe.
Tateio o que teus olhos velam
E tuas palavras soam,
Mas tu sempre criança.
Tua imagem cobre todas as tardes,
Cada ponto de cada paisagem,
Mesmo nos mapas que não mostram os caminhos do teu corpo,
Mesmo nos dias em que só há renúncia,
Quando me surpreendo com o rosto vazio,
E te avisto com a mesma expressão avulsa
Da minha jovem cara distraída em ti.
Terrível sedução da leviana indecisão,
O amargo encanto dos gestos indevidos,
Das frases soltas e impróprias,
Dos desejos retirados,
Dos sabores umedecidos tanto quanto emudecidos.
Resta toda noite para observarmos o céu,
Caçarmos estrelas perdidas,
Falarmos bobagens excelentes,
Termos apenas os momentos.
Resta toda noite para olharmos o teto,
Encararmos as paredes que nos entremeiam invisíveis,
Discutirmos o gosto por nada e por tudo,
Sermos sempre cúmplices, até na réplica.
Estarei durante toda noite,
Sussurrando minha respiração,
Escondendo e multiplicando o desconhecido,
Revelando tudo que já sabemos.
E tua pele lisa escorrega em pedidos que são a tua voz,
Mas tu sempre tímido.
Vejo o que o teu corpo esconde
E teus olhos desenham em cores,
Mas tu sempre longe.
Tateio o que teus olhos velam
E tuas palavras soam,
Mas tu sempre criança.
Tua imagem cobre todas as tardes,
Cada ponto de cada paisagem,
Mesmo nos mapas que não mostram os caminhos do teu corpo,
Mesmo nos dias em que só há renúncia,
Quando me surpreendo com o rosto vazio,
E te avisto com a mesma expressão avulsa
Da minha jovem cara distraída em ti.
Terrível sedução da leviana indecisão,
O amargo encanto dos gestos indevidos,
Das frases soltas e impróprias,
Dos desejos retirados,
Dos sabores umedecidos tanto quanto emudecidos.
Resta toda noite para observarmos o céu,
Caçarmos estrelas perdidas,
Falarmos bobagens excelentes,
Termos apenas os momentos.
Resta toda noite para olharmos o teto,
Encararmos as paredes que nos entremeiam invisíveis,
Discutirmos o gosto por nada e por tudo,
Sermos sempre cúmplices, até na réplica.
Estarei durante toda noite,
Sussurrando minha respiração,
Escondendo e multiplicando o desconhecido,
Revelando tudo que já sabemos.
quarta-feira, 28 de janeiro de 2009
Se isto é tudo que me resta
Se isto é tudo que me resta, como posso fugir? Isto é tudo que me resta, amar e morrer todo dia, viver todo dia, ouvir meus passos quebrados atrás de mim, ouvir os passos caindo nos espaços, o estalar dos cacos, e uma tentativa sublime de colar os atos no tempo, no ar, na brisa fresca da noite, no calor abafado da tarde, no sono da manhã.
Quero colher as flores que brotam do meu coração, antes que elas murchem, quero colher as flores que brotam do coração da vida, antes que murchem, quero tê-las em minhas salas, depois perdê-las no espectro das ruas. Quero as flores dos meus sorrisos regadas com minhas lágrimas. Quero as pétalas aos ventos.
Diria que são as borboletas dançando dentro de mim, milhares. Mas as borboletas morrem e cada vez que elas deitam sua eternidade efêmera em mim, dói. Quando cada uma delas cansa suas asas e descansam caídas, dói como um milhão delas, como todas elas. O que me sustenta é que sempre nascem mais e mais borboletas e sempre há muitas cores batendo asas e voando em mim.
Há vermelho, e isto é sangue, paixão e loucura; há azul, e isto é mar, céu, imensidão e solidão, há amarelo, e isto é fruta, sabor e sol; há lilás, e isto é lembrança, transformação e espírito; há verde, e isto é cheiro, folhas e imagem; há laranja, e isto é calor, crepúsculo e reflexão; há branco, e isto é intenso, brusco e longo; há rosa, e isto é carinho, doce e afeto; há negro, e isto é medo, mistério, profundidade e poesia.
Espalho as cores, reflito as cores, absorvo num sorvo, sugo seus gostos da atmosfera, desato-as na alma das coisas.
Quero colher as flores que brotam do meu coração, antes que elas murchem, quero colher as flores que brotam do coração da vida, antes que murchem, quero tê-las em minhas salas, depois perdê-las no espectro das ruas. Quero as flores dos meus sorrisos regadas com minhas lágrimas. Quero as pétalas aos ventos.
Diria que são as borboletas dançando dentro de mim, milhares. Mas as borboletas morrem e cada vez que elas deitam sua eternidade efêmera em mim, dói. Quando cada uma delas cansa suas asas e descansam caídas, dói como um milhão delas, como todas elas. O que me sustenta é que sempre nascem mais e mais borboletas e sempre há muitas cores batendo asas e voando em mim.
Há vermelho, e isto é sangue, paixão e loucura; há azul, e isto é mar, céu, imensidão e solidão, há amarelo, e isto é fruta, sabor e sol; há lilás, e isto é lembrança, transformação e espírito; há verde, e isto é cheiro, folhas e imagem; há laranja, e isto é calor, crepúsculo e reflexão; há branco, e isto é intenso, brusco e longo; há rosa, e isto é carinho, doce e afeto; há negro, e isto é medo, mistério, profundidade e poesia.
Espalho as cores, reflito as cores, absorvo num sorvo, sugo seus gostos da atmosfera, desato-as na alma das coisas.
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Breve Reflexão
Quem é ela? Eu não sei quem ela é, o que ela foi ou o que ela será. Quem sou eu? Eu não sei quem eu sou, quem eu fui e quem eu serei. É como se estivesse caminhando entre neblinas brancas durante a noite. Isto é bom, suave, liso, delicioso, extasiante, divertido ou romântico, mas às vezes este flutuar é terrível, angustiante, triste e depressivo, então, num quase desespero, se tudo não fosse demasiado parado, tenho vontade de deixar tudo, abandonar tudo, todos, eu mesma, mudar para um lugar distante, uma vida distante, ser, ser, ser, ser algo ou alguém que eu possa descrever, escrever. Ou então simplesmente deixar que eu não seja nada, não seja de ninguém nem de nenhum lugar, rasgar as teias bordadas pelo tempo e pelo espaço, pelas pessoas e pelos sentimentos.
Ela se entrega quase como uma criança se entrega a um brinquedo, mas ela não se cansa, ela se entrega como um deus se entrega ao mundo, ela se entrega como se eu não fosse quem eu sou, aceitando-me, adorando-me, e me arrastando junto a si. Arrastando-me para seu mundo, arrastando-me, como se eu não pudesse evitar, e, de fato, eu não estou evitando nada, eu estou até sendo sincera, mas isto não é algo assim tão fácil, eu sou longínqua, eu mesma tenho que gritar meu nome quando preciso me chamar, pois estou lá, aonde a vista precisa se esforçar para enxergar. E nada esta me arrastando, estou indo de mãos soltas para onde apraz.
Penso, posso passar minha vida ao seu lado, depois penso, como poderia eu passar a vida ao lado de alguém, se no fundo só sei ser sozinha, só sei caminhar em névoa, só sei pertencer ao vento, sei apenas pronunciar palavras, cordiais ou bruscas, fraternais ou imateriais e mais nada. É isto, a imaterialidade sufocando meus motivos e anseios, pouco mais do que isto, e, no entanto, esta sensação gigante de mundo.
E ela esta lá, a alguns quilômetros de mim, alguns quilômetros do meu corpo, sorrindo, como se eu pudesse vê-la aqui do meu lado, ela está sempre prestes a me tocar, a acariciar-me, a escrever-me poemas, a ser minha, mas eu nunca tenho certeza, nunca terei certeza, minhas certezas resolveram ir embora quando fiquei triste pela primeira vez, quando pela primeira vez chorei, não, não era a primeira vez, mas era como se fosse, e pela primeira vez eu me detestei, eu me culpei, eu cai, eu sumi, pela primeira vez também aprendi, mas pela última vez eu tive certeza. E agora, eu que não tenho certeza, fico buscando as certezas, fico buscando respostas que jamais terei, fico espreitando o invisível.
Ela está a alguns quilômetros, mas há pouco esteve ao meu lado, há poucos minutos, há poucas horas atrás, há alguns dias, não mais do que um dia, ontem ainda, ela estava bem aqui onde estou agora, junto de mim, e assim eu era dela, não totalmente dela, porque tinha que ser minha também, mas era quase toda dela e ela não dizia nada, pois sabia que eu era dela. Mas ela tem olhos delicados que assustam, seus olhos assustam quase tanto quanto os meus quando me vejo. Ah, ela aceita-me, e isto é estranho demais para mim. E eu tenho tantas estradas, tantos caminhos, tantos passos, tantos desvios, tantas brechas, tantas cavernas, tantos céus, tantos rios, tantos penhascos, tantos planetas, tenho tudo a ser percorrido ainda, mas só posso dar um passo, um passo e depois outro e outro e outro e outro e outro e outro e outro e outro e outro e outro e outro e outro e outro... mas apenas um passo, enquanto penso mil passos. Sobre ela eu sei pouco, mas ela tem a mania de ser sincera e eu tenho a mania de tentar ser eu mesma representando-me, mal conseguindo fugir da teatralidade da vida. Ela tem a mania de ser tão sincera que eu não sei se ela é ela mesma ou se ela só sabe ser assim, mas se ela só sabe ser assim, ela é tão linda, e eu tão avessa que não me importa se sou linda ou horrível, pois sou avessa. Mas quero sempre ser bela, só que não sei ser nada disto, não sei ser linda, tampouco sei ser feia. A beleza é uma imagem, uma sensação, um sentido sem sentido. Não aprendi nada. Sei, eu a quero, mas querê-la é um abismo. Então pergunto se realmente quero, onde estou eu caminhando, para onde meus olhos vão, qual a temperatura dos meus desejos.
Transcorrer... correr... voar... permanecer... viajar... luzir... estar... avistar... sonhar... ficar... abraçar... molhar seus olhos... molhar sua boca... molhar seu corpo... transcorrer... correr... voar... permanecer... viajar... luzir... estar... avistar... sonhar... ficar... abraçar... molhar meus olhos... molhar minha boca... molhar meu corpo... minha vida... viver... viver... viver...
Ela se entrega quase como uma criança se entrega a um brinquedo, mas ela não se cansa, ela se entrega como um deus se entrega ao mundo, ela se entrega como se eu não fosse quem eu sou, aceitando-me, adorando-me, e me arrastando junto a si. Arrastando-me para seu mundo, arrastando-me, como se eu não pudesse evitar, e, de fato, eu não estou evitando nada, eu estou até sendo sincera, mas isto não é algo assim tão fácil, eu sou longínqua, eu mesma tenho que gritar meu nome quando preciso me chamar, pois estou lá, aonde a vista precisa se esforçar para enxergar. E nada esta me arrastando, estou indo de mãos soltas para onde apraz.
Penso, posso passar minha vida ao seu lado, depois penso, como poderia eu passar a vida ao lado de alguém, se no fundo só sei ser sozinha, só sei caminhar em névoa, só sei pertencer ao vento, sei apenas pronunciar palavras, cordiais ou bruscas, fraternais ou imateriais e mais nada. É isto, a imaterialidade sufocando meus motivos e anseios, pouco mais do que isto, e, no entanto, esta sensação gigante de mundo.
E ela esta lá, a alguns quilômetros de mim, alguns quilômetros do meu corpo, sorrindo, como se eu pudesse vê-la aqui do meu lado, ela está sempre prestes a me tocar, a acariciar-me, a escrever-me poemas, a ser minha, mas eu nunca tenho certeza, nunca terei certeza, minhas certezas resolveram ir embora quando fiquei triste pela primeira vez, quando pela primeira vez chorei, não, não era a primeira vez, mas era como se fosse, e pela primeira vez eu me detestei, eu me culpei, eu cai, eu sumi, pela primeira vez também aprendi, mas pela última vez eu tive certeza. E agora, eu que não tenho certeza, fico buscando as certezas, fico buscando respostas que jamais terei, fico espreitando o invisível.
Ela está a alguns quilômetros, mas há pouco esteve ao meu lado, há poucos minutos, há poucas horas atrás, há alguns dias, não mais do que um dia, ontem ainda, ela estava bem aqui onde estou agora, junto de mim, e assim eu era dela, não totalmente dela, porque tinha que ser minha também, mas era quase toda dela e ela não dizia nada, pois sabia que eu era dela. Mas ela tem olhos delicados que assustam, seus olhos assustam quase tanto quanto os meus quando me vejo. Ah, ela aceita-me, e isto é estranho demais para mim. E eu tenho tantas estradas, tantos caminhos, tantos passos, tantos desvios, tantas brechas, tantas cavernas, tantos céus, tantos rios, tantos penhascos, tantos planetas, tenho tudo a ser percorrido ainda, mas só posso dar um passo, um passo e depois outro e outro e outro e outro e outro e outro e outro e outro e outro e outro e outro e outro e outro... mas apenas um passo, enquanto penso mil passos. Sobre ela eu sei pouco, mas ela tem a mania de ser sincera e eu tenho a mania de tentar ser eu mesma representando-me, mal conseguindo fugir da teatralidade da vida. Ela tem a mania de ser tão sincera que eu não sei se ela é ela mesma ou se ela só sabe ser assim, mas se ela só sabe ser assim, ela é tão linda, e eu tão avessa que não me importa se sou linda ou horrível, pois sou avessa. Mas quero sempre ser bela, só que não sei ser nada disto, não sei ser linda, tampouco sei ser feia. A beleza é uma imagem, uma sensação, um sentido sem sentido. Não aprendi nada. Sei, eu a quero, mas querê-la é um abismo. Então pergunto se realmente quero, onde estou eu caminhando, para onde meus olhos vão, qual a temperatura dos meus desejos.
Transcorrer... correr... voar... permanecer... viajar... luzir... estar... avistar... sonhar... ficar... abraçar... molhar seus olhos... molhar sua boca... molhar seu corpo... transcorrer... correr... voar... permanecer... viajar... luzir... estar... avistar... sonhar... ficar... abraçar... molhar meus olhos... molhar minha boca... molhar meu corpo... minha vida... viver... viver... viver...
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sábado, 17 de janeiro de 2009
Vou Volto
Vou
Volto
Sou meu retrato
Meu retrato não sou eu
Quero o que nunca quis
Teus lábios
Tua pessoa
Desejo o que jamais desejarei
Jamais quis
Jamais pedirei este doce
T u nãos tens
Este mel que tu não derramas
Jamais tu me farias feliz
Por quê?
Isto é este momento
Este acorde do violão
Esta sinfonia sem som
Enquanto ando
Enquanto o deserto venta
Enquanto a areia é o ar
Enquanto a água é o sal do mar
Enquanto o fogo é o corpo
Enquanto a dor participa de mim
Enquanto sou eu
Enquanto sou você
Enquanto sou apenas uma mancha
Um rabisco na paisagem
Uma voz no resto solitário do tempo
Vou
Volto
Sempre irei
Sempre voltarei
Porque amo este mundo desabitado que habitei
A palavra muda que gritei
E o rosto invisível
Que fiz questão de escancarar
Sempre irei
Sempre estarei
Estou como uma pluma no chão
Estou como uma pedra na bruma
Chovo nos teus olhos que vidram
Sigo passagens de nuvens
Volto
Sou meu retrato
Meu retrato não sou eu
Quero o que nunca quis
Teus lábios
Tua pessoa
Desejo o que jamais desejarei
Jamais quis
Jamais pedirei este doce
T u nãos tens
Este mel que tu não derramas
Jamais tu me farias feliz
Por quê?
Isto é este momento
Este acorde do violão
Esta sinfonia sem som
Enquanto ando
Enquanto o deserto venta
Enquanto a areia é o ar
Enquanto a água é o sal do mar
Enquanto o fogo é o corpo
Enquanto a dor participa de mim
Enquanto sou eu
Enquanto sou você
Enquanto sou apenas uma mancha
Um rabisco na paisagem
Uma voz no resto solitário do tempo
Vou
Volto
Sempre irei
Sempre voltarei
Porque amo este mundo desabitado que habitei
A palavra muda que gritei
E o rosto invisível
Que fiz questão de escancarar
Sempre irei
Sempre estarei
Estou como uma pluma no chão
Estou como uma pedra na bruma
Chovo nos teus olhos que vidram
Sigo passagens de nuvens
quinta-feira, 15 de janeiro de 2009
Venho
Venho junto a mim,
Venho sentar-me comigo,
Venho deitar-me em mim,
Venho dormir no meu silêncio,
Minha tranqüila espera,
Mas é inevitável que meus pesadelos me acompanhem,
É inevitável entrar-me,
Estes medos são inevitáveis.
Agora eu peço aos meus sonhos os meus sonhos,
E inesperadamente sussurro seus nomes,
Inevitavelmente,
E quero seus laços,
E nesta dor espero os seus sorrisos,
O abrigo de meus amores,
Seu corpo alisando meus desesperos,
Meus desesperos deitados.
Aguardo o sol penetrar a janela,
Então fecharei os olhos sem receios.
Aguardo você,
Para confessar os segredos.
Distantes as horas de mim,
Distantes os espaços dos meus passos.
Desejo os nossos desejos,
Anseio nossos anseios.
Durmo meu sono solitário,
Minha voz vazia,
Os ventos rangem a porta na escuridão.
Venho sentar-me comigo,
Venho deitar-me em mim,
Venho dormir no meu silêncio,
Minha tranqüila espera,
Mas é inevitável que meus pesadelos me acompanhem,
É inevitável entrar-me,
Estes medos são inevitáveis.
Agora eu peço aos meus sonhos os meus sonhos,
E inesperadamente sussurro seus nomes,
Inevitavelmente,
E quero seus laços,
E nesta dor espero os seus sorrisos,
O abrigo de meus amores,
Seu corpo alisando meus desesperos,
Meus desesperos deitados.
Aguardo o sol penetrar a janela,
Então fecharei os olhos sem receios.
Aguardo você,
Para confessar os segredos.
Distantes as horas de mim,
Distantes os espaços dos meus passos.
Desejo os nossos desejos,
Anseio nossos anseios.
Durmo meu sono solitário,
Minha voz vazia,
Os ventos rangem a porta na escuridão.
Você e seus colares de pérolas
Você e seus colares de pérolas
Você e seus olhares de pedras
Você e seus colares de pedras
Você e seus olhares de pérolas
Você e seus olhares de pedras
Você e seus colares de pedras
Você e seus olhares de pérolas
Vermelho
Tudo era vermelho e chovia
Eu trazia mil relâmpagos nos olhos
Vinha de uma vida vazia
Procurando vasos para guardar minhas flores
Eu mesma uma porção de vasos cheios de ausência
Tudo era vermelho enquanto chovia
Mas os tristes também riem
E os alegres também choram
Mas não quis dizer qualquer palavra
Mas o mundo inteiro vago
Mas disse todas as manhãs
Disse todas as tardes
E disse todos os ventos que passaram em mim
Disse infinitas noites
Disse minhas mais cruéis delicadezas
E minhas delicadezas ferozes
Mas nos azuis da minha alma você entrou com calma
Mesmo tudo vermelho lá fora
E vermelho aqui dentro
Mas as janelas fechadas
E as portas trancadas
Mas você entrou pelos buracos da alma
Chovia e era vermelho
Não meus olhos que choravam
Não a dança das minhas lágrimas
Não o barulho da minha dor
O céu completo era vermelho
E nós olhávamos do horizonte para cima
Eu trazia mil relâmpagos nos olhos
Vinha de uma vida vazia
Procurando vasos para guardar minhas flores
Eu mesma uma porção de vasos cheios de ausência
Tudo era vermelho enquanto chovia
Mas os tristes também riem
E os alegres também choram
Mas não quis dizer qualquer palavra
Mas o mundo inteiro vago
Mas disse todas as manhãs
Disse todas as tardes
E disse todos os ventos que passaram em mim
Disse infinitas noites
Disse minhas mais cruéis delicadezas
E minhas delicadezas ferozes
Mas nos azuis da minha alma você entrou com calma
Mesmo tudo vermelho lá fora
E vermelho aqui dentro
Mas as janelas fechadas
E as portas trancadas
Mas você entrou pelos buracos da alma
Chovia e era vermelho
Não meus olhos que choravam
Não a dança das minhas lágrimas
Não o barulho da minha dor
O céu completo era vermelho
E nós olhávamos do horizonte para cima
Coração...
É cedo para você perguntar do meu coração,
Meu coração é distraído,
Nem repara o que repara.
Meu coração lança-se cegamente
Num caminho sinuoso e complexo.
Eu perco-me nas travessas do meu coração.
Eu sento e observo meus passos atrasados atrás de mim.
Eu ouço uma música triste,
Uma música qualquer,
E durmo quando o sol nasce.
Meu coração é distraído,
Nem repara o que repara.
Meu coração lança-se cegamente
Num caminho sinuoso e complexo.
Eu perco-me nas travessas do meu coração.
Eu sento e observo meus passos atrasados atrás de mim.
Eu ouço uma música triste,
Uma música qualquer,
E durmo quando o sol nasce.
Meu Coração
Meu coração pula por aí
Nos bares
Nos líquidos dos copos
Licores azuis e cor de rosa
Meu coração pula por aí
Nas cidades
Nas janelas acesas
Quartos elegantes e pobres
Meu coração vaza e emudece
Percorre ruas imensas
Escorre
Sob os pés
Escorre
Morre
Em cada lua
Morre
Em cada estrela
Em cada astro
E cada rastro
Em todo fim
E até em todo começo
Em todos meus sorrisos do avesso
Em tudo
Nos meus roubos
Nos atos intactos
Toda vez que furtei olhos e bocas
Toda vez que entreguei corpo e sonhos
Toda vez que pressinto o vazio
E toda vez que não sei
E eu nunca sei
Nos bares
Nos líquidos dos copos
Licores azuis e cor de rosa
Meu coração pula por aí
Nas cidades
Nas janelas acesas
Quartos elegantes e pobres
Meu coração vaza e emudece
Percorre ruas imensas
Escorre
Sob os pés
Escorre
Morre
Em cada lua
Morre
Em cada estrela
Em cada astro
E cada rastro
Em todo fim
E até em todo começo
Em todos meus sorrisos do avesso
Em tudo
Nos meus roubos
Nos atos intactos
Toda vez que furtei olhos e bocas
Toda vez que entreguei corpo e sonhos
Toda vez que pressinto o vazio
E toda vez que não sei
E eu nunca sei
Distraio-me
Distraio-me pensando em você,
Lembrando ou imaginando,
Querendo ou escondendo,
Sorrindo ou chorando.
Quando me percebo,
Já me esqueci,
Já me perdi,
Já me atrasei naquilo em que me adiantei.
Sempre perto de mim,
Palavras que não sei pronunciar,
Infinito difícil de descrever.
Seus olhos brandos
São o alvoroço dos meus olhos,
Seu rosto calado
É o ruído do meu rosto.
Sempre longe de mim,
Cores que quero tocar,
Versos que tento dizer .
Esta noite você aparece nos meus sonhos,
Tantas noites as paisagens somem,
Outra noite com a tua imagem.
A lua reflete tua voz em meus ouvidos,
O resto é silêncio esquecido,
Pois a canção que fugiu dos teus lábios,
Mesmo quando você quis silenciar,
É a única canção.
Lembrando ou imaginando,
Querendo ou escondendo,
Sorrindo ou chorando.
Quando me percebo,
Já me esqueci,
Já me perdi,
Já me atrasei naquilo em que me adiantei.
Sempre perto de mim,
Palavras que não sei pronunciar,
Infinito difícil de descrever.
Seus olhos brandos
São o alvoroço dos meus olhos,
Seu rosto calado
É o ruído do meu rosto.
Sempre longe de mim,
Cores que quero tocar,
Versos que tento dizer .
Esta noite você aparece nos meus sonhos,
Tantas noites as paisagens somem,
Outra noite com a tua imagem.
A lua reflete tua voz em meus ouvidos,
O resto é silêncio esquecido,
Pois a canção que fugiu dos teus lábios,
Mesmo quando você quis silenciar,
É a única canção.
terça-feira, 13 de janeiro de 2009
Atravessei
Atravessei ruas,
Atravessei danças da noite,
Atravessei em distração as páginas de um livro,
Ainda distráida atravessei mil olhares penetrantes.
Atravessei corredores e elevadores,
Atravessei espectros do passado,
Atravessei em esquecimento rastros de mim,
Ainda esquecida atravessei meus próprios passos.
Atravessei o presente,
Mas não cheguei no futuro,
E atravessei meus sonhos,
Enquanto varava a madrugada.
No entanto não atravessei você,
Não atravessei as flores do seu cheiro,
Nem o gosto dos seus lábios,
Não atravessei o tempo do seu silêncio,
Nem o espaço das suas palavras,
Tampouco atravessei nossa memória,
Suas marcas em mim flutuam intactas.
Atravessei danças da noite,
Atravessei em distração as páginas de um livro,
Ainda distráida atravessei mil olhares penetrantes.
Atravessei corredores e elevadores,
Atravessei espectros do passado,
Atravessei em esquecimento rastros de mim,
Ainda esquecida atravessei meus próprios passos.
Atravessei o presente,
Mas não cheguei no futuro,
E atravessei meus sonhos,
Enquanto varava a madrugada.
No entanto não atravessei você,
Não atravessei as flores do seu cheiro,
Nem o gosto dos seus lábios,
Não atravessei o tempo do seu silêncio,
Nem o espaço das suas palavras,
Tampouco atravessei nossa memória,
Suas marcas em mim flutuam intactas.
Entre o vento e a tarde
Entre o vento e a tarde,
De um lado a outro meus passos,
Sobre o verde e sob o azul,
A frescura da chuva deitada,
As amoras esmagadas no chão,
Os amores apertados no peito,
O cheiro vermelho violeta,
E as memórias enroscadas no tempo,
Todas sussurrando em mim,
Desenhando imagens de neblina,
Procurando brechas nos rochedos,
Dedilhando notas no ar,
Dançando melodias de dias infindos.
De um lado a outro meus passos,
Sobre o verde e sob o azul,
A frescura da chuva deitada,
As amoras esmagadas no chão,
Os amores apertados no peito,
O cheiro vermelho violeta,
E as memórias enroscadas no tempo,
Todas sussurrando em mim,
Desenhando imagens de neblina,
Procurando brechas nos rochedos,
Dedilhando notas no ar,
Dançando melodias de dias infindos.
quinta-feira, 8 de janeiro de 2009
Quisera eu um gosto
Quisera eu um gosto
Um pouco
Do teu rosto
Teu torso
Quisera eu apenas um pouco
Tua língua
Tua saliva
Tua brisa
Mas quero um querer fundo
Além do muito
Do suposto mundo
Mais que palavras cruas
Ou o meu sorriso mudo
Quero todas as luas
Todas as noites tuas
E quando fores água
Quero molhar-me em cada gota
E quando fores fogo
Quero arder em cada chama
Quisera eu um rosto
Um corpo sobreposto
Apenas um pouco
Do teu gosto
Um pouco
Do teu rosto
Teu torso
Quisera eu apenas um pouco
Tua língua
Tua saliva
Tua brisa
Mas quero um querer fundo
Além do muito
Do suposto mundo
Mais que palavras cruas
Ou o meu sorriso mudo
Quero todas as luas
Todas as noites tuas
E quando fores água
Quero molhar-me em cada gota
E quando fores fogo
Quero arder em cada chama
Quisera eu um rosto
Um corpo sobreposto
Apenas um pouco
Do teu gosto
domingo, 24 de agosto de 2008
Nobre Postura
Uma nobre postura,
Estacionada e incongruente,
Expandindo a pequenez por tantos ângulos.
Segurei, mas caiu a lágrima,
Caiu como um fio dos meus olhos,
Escorrendo junto minha alma,
Vazou em diminuto,
Tão feroz e lentamente!
Voraz, porém perdida,
Acariciando a dor,
Acariciando meu próprio afeto
E desafeto.
O feto de minhas buscas,
O gêmeo de minhas angústias.
Uma nobre postura,
De pedra líquida e rachada,
Encolhendo os medos em cada canto do corpo.
Tive um desejo surdo que escutei,
Minhas vozes chamavam meu nome,
Chamavam-me também por outros nomes,
Alguns que nem conheço nem entendo,
Alguns que entendo e conheço demais
Para encarar.
Fecho os olhos em resignação envergonhada.
Mas serei sempre o depois,
Serei sempre pouco em tanto,
Serei sempre o avesso sujo
Ou enojadamente limpo,
Serei sempre a calada,
A que espera em estupidez um beijo?
Não um beijo de alguém,
Um beijo apenas,
Como se no beijo todo mais diluísse,
Como se um beijo pudesse diluir-me,
Desistindo-me de expressar,
Ou expressando-me toda num beijo,
Ou então, apenas querendo um beijo,
Apenas querendo a expressão do beijo,
Não mais a minha,
Querendo de mim apenas quietude,
Entrega e tristeza a escoar,
Escoar, escoar, escoar...
Como se logo fosse um fim,
Mais a frente um pouco, o fim.
Eu, que não desejo o fim,
Fico tentando enxergá-lo,
Forço os olhos para visualizá-lo,
Mas nada encontro em nenhum lugar.
Uma nobre postura
Que se desfaz cansada,
Entrega as cartas e assume as trapaças.
Estacionada e incongruente,
Expandindo a pequenez por tantos ângulos.
Segurei, mas caiu a lágrima,
Caiu como um fio dos meus olhos,
Escorrendo junto minha alma,
Vazou em diminuto,
Tão feroz e lentamente!
Voraz, porém perdida,
Acariciando a dor,
Acariciando meu próprio afeto
E desafeto.
O feto de minhas buscas,
O gêmeo de minhas angústias.
Uma nobre postura,
De pedra líquida e rachada,
Encolhendo os medos em cada canto do corpo.
Tive um desejo surdo que escutei,
Minhas vozes chamavam meu nome,
Chamavam-me também por outros nomes,
Alguns que nem conheço nem entendo,
Alguns que entendo e conheço demais
Para encarar.
Fecho os olhos em resignação envergonhada.
Mas serei sempre o depois,
Serei sempre pouco em tanto,
Serei sempre o avesso sujo
Ou enojadamente limpo,
Serei sempre a calada,
A que espera em estupidez um beijo?
Não um beijo de alguém,
Um beijo apenas,
Como se no beijo todo mais diluísse,
Como se um beijo pudesse diluir-me,
Desistindo-me de expressar,
Ou expressando-me toda num beijo,
Ou então, apenas querendo um beijo,
Apenas querendo a expressão do beijo,
Não mais a minha,
Querendo de mim apenas quietude,
Entrega e tristeza a escoar,
Escoar, escoar, escoar...
Como se logo fosse um fim,
Mais a frente um pouco, o fim.
Eu, que não desejo o fim,
Fico tentando enxergá-lo,
Forço os olhos para visualizá-lo,
Mas nada encontro em nenhum lugar.
Uma nobre postura
Que se desfaz cansada,
Entrega as cartas e assume as trapaças.
Embriaguez de Cansaço
Embriaguez de cansaço
O sono quente da noite
A chuva fria
As lembranças vagando nos porões
Piadas pacatas e indecentes
Poemas do avesso
Pensar nos fios de sua melancolia
Sentir seus fantasmas perto de mim
Apenas em imagem
Mas até as vértebras arrepiam
Calafrios perpassando meus duros calos
Um maço de cigarros de filtros vermelhos
São os disparates
Minha voz emparedada no quarto
Ou muito dispersa na úmida madrugada
Aqui nesta cidade inverno
Olhos que vibram
Olhos que vidram
Vidrados no transparente limpo das janelas
Paisagens tão calmas escondendo suas violências
Um coração pulando
Fugindo daqui
Fungando em desordem
Em descontente desânimo
Ou, talvez, apenas clamando
Chamando-me
Algumas idéias desmaterializadas
Matérias que vagam
Não assumo nada
Sumo no escuro
Sou a que voa, flutua e rasteja
Sou a que escorre em vão
A que se recolhe em lágrimas vãs
A que se espalha em lágrimas vãs
Se me pedem palavras
Se me cobram explicações
Não as tenho
Só tenho interjeições
Espaços entre o delito e o bom senso
O sono quente da noite
A chuva fria
As lembranças vagando nos porões
Piadas pacatas e indecentes
Poemas do avesso
Pensar nos fios de sua melancolia
Sentir seus fantasmas perto de mim
Apenas em imagem
Mas até as vértebras arrepiam
Calafrios perpassando meus duros calos
Um maço de cigarros de filtros vermelhos
São os disparates
Minha voz emparedada no quarto
Ou muito dispersa na úmida madrugada
Aqui nesta cidade inverno
Olhos que vibram
Olhos que vidram
Vidrados no transparente limpo das janelas
Paisagens tão calmas escondendo suas violências
Um coração pulando
Fugindo daqui
Fungando em desordem
Em descontente desânimo
Ou, talvez, apenas clamando
Chamando-me
Algumas idéias desmaterializadas
Matérias que vagam
Não assumo nada
Sumo no escuro
Sou a que voa, flutua e rasteja
Sou a que escorre em vão
A que se recolhe em lágrimas vãs
A que se espalha em lágrimas vãs
Se me pedem palavras
Se me cobram explicações
Não as tenho
Só tenho interjeições
Espaços entre o delito e o bom senso
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